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A ORAÇÃO QUE NÃO PODE CALAR

Esses dias li num livro um diálogo de um romance de Pedro Bloch que me chamou a atenção: - Você reza a Deus, menino? - Sim, toda noite. - E o que lhe pede? - Nada. Só lhe pergunto se posso ajudar em alguma coisa. Eis aqui uma boa oração que precisamos fazer! Com muita freqüência a nossa oração reflete uma espiritualidade ensimesmada, egoísta e displicente. Uma oração que não contempla a necessidade do outro, não se coloca a serviço de Deus e que só repete “me dá, me dá, me dá!”. Muitos fazem suas orações de petições como se Deus já não tivesse se envolvido totalmente com a humanidade; como se o Criador não tivesse começado a sua obra, como se Ele não estivesse promovendo a salvação e presente todos os dias entre nós. As orações de muitos evangélicos mais parecem uma tentativa de lembrar a Deus do bem que Ele deve fazer (e aqui a imagem é ridícula!) do que uma conversa de alguém realmente grato com o Promotor da Vida; um dedo de prosa de quem confia no amor divino com o Grande Amável; u...

GRAÇA: UM JEITO GOSTOSO DE VIVER!

Certo dia Simão recebe em sua casa Jesus e seus discípulos, Lázaro e suas irmãs. Eles chegam com os pés empoeirados, os rostos desidratados e cansados da caminhada. Seis dias antes da Páscoa o clima era tenso e reticente. Jesus já havia anunciado a sua morte. Subitamente entra na cena Maria que quebra um frasco de perfume e dá um banho em Jesus da cabeça aos pés! A macharada fica indignada pelo desperdício! Maria quebra a rotina sisuda com um gesto de graça. Esta mulher adora para além do culto, da fala, da música. Ela ama para além das palavras: ela ama com gestos! Eu enxergo nesta cena muito mais do que um ritual, do que uma prática dos antigos para receber seus convidados: óleo na cabeça, lavagem dos pés... Para mim Maria (da Graça) deu um banho de afeto em Jesus num momento muito delicado de sua vida! MARIA ENXERGA NO MESSIAS UM ALVO DA GRAÇA E NÃO O MESSIAS PARA UMA FUNÇÃO! A palavra Messias carrega todo o peso de uma função, da tarefa, da missão de Jesus. Ele é o Ungido de Deu...

Comunidade de Amigos

A idéia de Jesus nunca foi criar uma religião organizada. Jesus não tinha em mente plantar uma igreja com uma placa denominacional e nem (pasmem alguns!) criar o Cristianismo. Aliás, Jesus nasceu judeu com direito a rituais judaicos e morreu judeu. Se fosse assim, eu penso que Jesus teria agido de maneira diferente nos seus últimos encontros com os discípulos antes de subir para o Pai. Teria dado mil recomendações, métodos e dogmas. Os profissionais da publicidade devem ter se indignado com Jesus porque se ele queria “dar certo” deveria ter agido de outra maneira! Um marketeiro diria que se Jesus quisesse “vender sua imagem” deveria ter se apresentado ressurreto no templo, por exemplo, e não a um grupo de pescadores frustrados numa praia. Um publicitário teria pedido a Jesus pelo menos um slogan, uma frase de efeito ou o nome da igreja, além da nobre comissão “... ide por todo mundo ensinando a obedecer a tudo que eu vos tenho ordenado”. Os teólogos de plantão queriam uma teologia sist...

Bruno Forte citando Agostinho em seu livro "A porta da beleza"

O que amo quando Te amo? Não a beleza corporal, a formosura da idade, nem o fulgor da luz, tão caro a meus olhos, nem as doces melodias de cânticos de todos os tipos, nem a fragrância das flores, dos perfumes, dos aromas; nem o maná ou o mel, nem os membros tão susceptíveis aos abraços da carne. Não é isso que amo quando amo meu Deus. Amo, no entanto, em certo sentido a luz, o som, perfume, alimento, abraço de meu homem interior que mora em mim; onde refulge em minha alma uma luz que não tem limites de espaço, um espaço que não desaparece no tempo, um perfume que o vento não espalha, um sabor que o apetite não diminui, um abraço que a saciedade não desfaz. Tudo isso amo, quando amo a meu Deus. E o que é tudo isto? Perguntei à Terra e ela me respondeu: "Não sou eu". E todas as coisas que nela existem declararam o mesmo. Interroguei os mares e suas profundezas, os seres vivos que aí se movem, e responderam: "Não somos teu Deus. Procura mais acima de nós!" Disse então ...

Citação de Mia Couto

... a minha mulher, passa a vida falando com Deus. E eu vou ficando calado. Mesmo aos domingos de manhã: fico calado. Assim, silencioso, vou rezando. Que a gente reza melhor é quando nem sabemos que estamos a rezar. O silêncio, doutor: O silêncio é a língua de Deus. Dito Mariano (personagem do romance)

Trecho de Humano, Demasiado Humano de Nietzsche.

A linguagem como suposta ciência . – a importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor. Na medida em que por muito tempo acreditou nos conceitos e nomes de coisas como em verdades eternas , o homem adquiriu esse orgulho com que se ergueu acima do animal: pensou ter realmente na linguagem o conhecimento do mundo. O criador da linguagem não foi modesto a ponto de crer que dava às coisas apenas denominações, ele imaginou, isto sim, exprimir com as palavras o supremo saber sobre as coisas; de fato, a linguagem é a primeira etapa no esforço da ciência. Da crença na verdade encontrada fluíram, aqui também, as mais poderosas fontes de energia. Muito depois – somente agora – os homens começaram a ver que, em sua crença na linguagem, propagaram um erro monstruoso. Felizmente é tarde demais p...

O Vinho de Deus (canção inspirada no texto abaixo)

Cristo, o autor da vida Vida boa e abundante Faz valer à pena Cada dia, cada instante Banca o nosso vinho Que renova a esperança E a festa se prolonga Para o amor, o brinde e a dança O seu banquete é farto E todos são bem vindos O chef sugeriu: Viver é o melhor prato! E o vinho é por conta da Casa! Nossa alegria é o vinho de Deus Multiplicado, novo e bom A sua graça é o nosso alento E o nosso sorriso Nossa folia é festa nos céus O nosso vinho é o riso de Deus Nossa união é sua aposta E a sua glória

Salvação é um grande banquete oferecido por Deus onde todos são bem vindo e o melhor prato é viver!

Desde o princípio as Escrituras nos mostram um Deus que promove a vida! Não somente a vida que somente existe (nesse caso seríamos “cadáveres adiados que procriam”, para citar Fernando Pessoa). Mas a vida bem vivida! A Trindade num insight medonho cria todas as coisas, contempla a criação com reverência e se deleita com um refrão que se repete: “muito bom!”. O Jardim do Éden é palco para a festa dos céus e o homem e a mulher, o objeto de todo o amor de Deus! Muitos religiosos enxergam em Deus um estraga prazer, alguém que boicota a festa, o prazer, a gargalhada! Ensinaram para nós uma vida castrada cheia de “nãos” ao ponto de muitas vezes o indivíduo ter medo de que a simples lembrança de Deus atrapalhe seu tempo de entretenimento. Fizeram uma caricatura mais sem graça do Autor da Vida! Porém Jesus Cristo, que nos socorre das caricaturas de Deus, pode nos ajudar mais uma vez! Olho para o episódio do casamento em Caná da Galiléia e enxergo ali mais que o milagre de transformar água em v...

Todo aquele que faz a vontade do Pai é irmão de Jesus! (Mateus 12.50)

(...) alguém pode considerar-se explicitamente ateu e, contudo, ser implicitamente crente; e vice-versa: um crente explícito pode ser um ateu implícito. Que significa isto? Positivamente, uma idéia muito corrente e simples: pode haver pessoas que em sua convicção teórica neguem a Deus, mas que em sua vida, em suas atitudes e em sua conduta, o estejam afirmando. E, ao contrário, pode haver pessoas que confessem Deus com os lábios, mas que o negam com sua vida real. Uma idéia que, aliás, não tem nada de novo: "Nem todo o que diz: 'Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus", já diz o Evangelho de Mateus (7.21) (...) Mais do que negar Deus, o que muita gente nega é uma idéia de Deus ... Mas isto não significa que muitas vezes, na hora de viver, de situar-se fundo diante dos outros e de construir decisivamente a sua existência, não esteja respondendo ao chamado profundo de seu ser e, nesse chamado, a esse Deus que em teoria se vê levado a negar (...). Portanto, uma pessoa que ...

Música mais recente!

Pai de todos Pai nosso, Pai de todos Elevado além das nuvens Mas inscrito na história Aquém da glória Amaste muito Descendo à terra Dando a vida Suor e sangue A toda gente Nós teus filhos, parte dos filhos Pois são todos teus queridos, Estendemos nossos braços À tua graça Que é sem barganha Ao excluído E humilhado A toda a gente a quem amaste

Recorte de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.

- Piedade! Por que ter piedade de mim? – berrou de súbito Marmieládov, levantando-se de braço estirado para a frente, com uma inspiração firme, como se estivesse apenas esperando tais palavras. – Porque piedade? perguntas tu. Sim! Não há por que ter piedade de mim! O que é preciso é me crucificar, me pendurar numa cruz, e não ter piedade! Mas crucifica, juiz, crucifica, e depois de crucificar tem piedade dele! E então eu mesmo te procurarei para ser crucificado, pois não é de alegria que tenho sede, mas de tristeza e lágrimas!... Pensas tu, vendeiro, que essa tua meia garrafa me trouxe prazer? Tristeza, foi tristeza que procurei no seu fundo, tristeza e lágrimas, e as provei, e encontrei; terá piedade de nós aquele que teve piedade de todos e que a todos e tudo compreendeu, Ele é o único e também o juiz Ele voltará no dia do juízo e perguntará: “Onde está a filha [prostituta] que se sacrificou por uma madrasta má e tísica, por crianças estranhas e pequenas? Onde está a filha que teve p...

Música nova!

O coração de Jesus Um coração mais humano feito de carne e suor que vê no outro a face de Deus é o clamor do universo Um coração mais modesto que não almeja poder e vê nos gestos a graça de Deus é o que deseja minha alma A exemplo de Cristo, o Homem – Deus que viveu entre nós e amou percebeu o esquecido e triste do indivíduo foi sempre a favor Não usou seu poder pra se promover foi movido por tal compaixão que entregou sua vida por todos sem fazer nenhuma distinção O coração de Jesus o carpinteiro de Nazaré pode me tornar mais sensível e orientar minha fé

Entre a palavra e o espírito

Ah que vontade que dá De expor em rima, cor e som O que diz a alma em silêncio E reverbera ensurdecedor Mas ignorado e engasgado Ah que vontade que dá De perceber a rima, a cor e o som De um dizer outro Para um jeito novo de ouvir Que acolhe terno e grato Ah que vontade que dá De abstrair a rima, a cor e o som Voar com a imaginação Suspender-me em fé E pousar em Deus

A vida eterna começa aqui e agora.

Certa vez um jovem rico, religioso, moralmente correto, dono de muitas propriedades perguntou a Jesus: “que farei de bom para alcançar a vida eterna?”. A resposta de Jesus me fez pensar que a pergunta do jovem teria sido uma pergunta sem sentido; uma pergunta fora de lugar. “Por que me perguntas acerca do que é bom. Bom só existe um. Mas se queres entrar na Vida...” Ou seja: uma boa ação que garanta favores celestiais é impensável; um ser humano muito bom para se bastar inexiste. A pergunta que o jovem faz é absurda, mas a resposta de Cristo pode lhe socorrer de uma vida religiosa, gnóstica, avarenta e escapista. “’Mas se queres entrar na Vida... ’ se é a respeito, jovem, do engajamento na Vida, de uma participação responsável no Viver, nós podemos conversar.” A questão não é alcançar a vida eterna, a questão é entrar na Vida. (“Aliás, que tal entrar na Vida não possuindo? Que tal me seguir mais leve? Venda suas propriedades e dê aos pobres!”). “Alcançar a vida eterna” como se a vida ...

A letra mata... 2 ou sobre a importância da imaginação na leitura bíblica (texto de Eugene Peterson)

O evangelho de João fala sobre Jesus Cristo: a “Palavra tornou-se carne”. A narrativa insiste e demonstra que a “palavra” não é uma abstração filosófica, nem tinta sobre pergaminho, mas, sim, uma ocorrência histórica. A Epístola de João também enfatiza a palavra física, sensorial e histórica: “... o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1 Jo 1.1). A palavra de Deus foi pronunciada antes de ser escrita. Pessoas viram, tocaram e ouviram Jesus antes de escrever sobre Ele. O que caracteriza a “palavra de Deus”, acima de qualquer outra coisa, é ser falada, ter uma criatividade viva e dinâmica. A palavra de Deus escrita (scriptura) é maravilhosa, mas é também uma bênção que traz vantagens e desvantagens. Vantagens porque cada nova geração de cristãos tem acesso ao fato de que Deus fala, conhece a maneira como Ele se expressa e os resultados decorrentes dessa manifestação. A desvantagem es...

A letra mata... (um texto de Rubem Alves)

Um texto são palavras mobilizadas no papel pela química da tinta. Quando elas apareceram pela primeira vez, seu estado não era esse: mais se pareciam com pássaros selvagens, batendo as asas... O professor [teólogo-cientista] armou suas arapucas, pegou os pássaros, selecionou os que lhe interessavam e engaiolou-os com papel e tinta. Pobres palavras... Perderam a liberdade. Agora estão congeladas no tempo e no espaço. Mas depois, quando o professor [teólogo-cientista] se puser a lê-las, será a sua vez de perder a liberdade. Agora, sob o comando das palavras escritas, ele será obrigado a dizer aquilo a que elas o obrigam. A química prende as palavras no papel. Mas, no momento da leitura, a física da luz faz que elas voem do papel para os olhos, dos olhos, para a morada dos pensamentos, e daí para a boca. E o “lente” as transforma em sons. Ele as diz. Se, por acaso, pássaros diferentes passam batendo as asas, ele faz de conta que não os vê. Se ele se sente tentado a voar com eles, o texto ...

GRAÇA: FLUIR NATURAL DO AMOR DE DEUS

A Graça de Deus está para além de todas as categorias que possamos formatar. Não cabe em nossa lógica e toda palavra que possamos usar para ela corre o risco de fazê-la menor. É incondicional: não escolhe patente, sexo, condições sócio-econômicas, cor, grau de piedade, credo ou idade. Ela é porque Deus é! Deus não sabe ser de outra maneira senão gracioso; graça é a própria essência do caráter de Deus – e Deus não se anula. Concordo com Phillip Yancey quando ele diz que “graça significa que não há nada que eu possa fazer que diminua ou aumente o amor de Deus por mim”, pois amor é escolha, e Deus já escolheu me amar quando ainda eu era seu inimigo. Mais ainda: antes de me criar Ele me amou, e para isso me criou. Segundo C.S. Lewis o propósito mais nobre e primeiro para o qual o homem foi criado é para ser recipiente do amor do Criador, e não, como pensam alguns, para amar o Criador. Um Deus que se ocupasse em criar um ser para amá-lo seria pequeno, egoísta e incompleto. Deus não necessit...

O Reino dos céus está entre nós

Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: “A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer; ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali! ’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17.20,21). O Reino dos céus não é simplesmente um lugar geográfico, metafísico para além da terra; ele está aqui! Ele está entre nós! O Reino dos céus está no comércio do João, No consultório da Maria, na banca da Zezé. É a Francisca fazendo bolo É a Neide servindo café O Reino está na clínica do Antônio Nas vendas do Miguel, No pescado de José... O Reino dos céus não é religioso, institucional, domesticável, ele está espalhado por toda a terra. O Reino dos céus se move de muitas formas, para todos os lados, espalhando seus valores e sinalizações. Mas para enxergar o Reino é necessário ter outros olhos (“o essencial é invisível aos olhos”). É preciso ter de volta os sentidos que uma sociedade corrompida nos tirou. É preciso exercitar novamente o toque (o abraço...

Sobre a Trindade - Leonardo Boff

A teologia restringiu-se, normalmente, à reflexão formal sobre o mistério da comunhão trinitária. Procurava-se penetrar racionalmente no sol ofuscador que é a própria essência do Deus trino. No termo desta diligência está o silêncio respeitoso. Toda falta que ultrapassar as barreiras da percepção do mistério se transforma em tagarelice e gera o sentimento de profanação do Sacrossanto. Assim é a situação humana quando confrontada com a Trindade imanente. Se não podemos nem devemos falar; podemos, entretanto, cantar e louvar. Cesse a razão, ganhe asas a imaginação. Foi assim que fizeram os místicos a quem foi dada a graça de intuírem a convivência trinitária. São três distintos, como que desembocaduras de três caudais sem margens formando um só oceano de vida e amor. São três olhares distintos constituindo uma só visão. A autodoação de um ao outro, o conúbio dos Três num só amor porduz glória e alegria sem fim. O fluxo e o refluxo, a diástole e a sístole dos divinos Três se interpenetran...