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A letra mata... 2 ou sobre a importância da imaginação na leitura bíblica (texto de Eugene Peterson)

O evangelho de João fala sobre Jesus Cristo: a “Palavra tornou-se carne”. A narrativa insiste e demonstra que a “palavra” não é uma abstração filosófica, nem tinta sobre pergaminho, mas, sim, uma ocorrência histórica. A Epístola de João também enfatiza a palavra física, sensorial e histórica: “... o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1 Jo 1.1). A palavra de Deus foi pronunciada antes de ser escrita. Pessoas viram, tocaram e ouviram Jesus antes de escrever sobre Ele. O que caracteriza a “palavra de Deus”, acima de qualquer outra coisa, é ser falada, ter uma criatividade viva e dinâmica.
A palavra de Deus escrita (scriptura) é maravilhosa, mas é também uma bênção que traz vantagens e desvantagens. Vantagens porque cada nova geração de cristãos tem acesso ao fato de que Deus fala, conhece a maneira como Ele se expressa e os resultados decorrentes dessa manifestação. A desvantagem está quando, no momento em que as palavras são escritas, corre-se o risco de perder a ressonância viva da fala e reduzir-se a objeto de contemplação, estudo, interpretação, sem qualquer envolvimento pessoal. No momento da escrita, as palavras se separam da voz que as pronunciou e, portanto, são despersonalizadas. Contudo, a essência delas é pessoal.
As palavras são o meio utilizado por alguém para compartilhar o que há em seu íntimo. As palavras unem espíritos. Reduzidas à escrita e deixadas de lado, cessam de cumprir o objetivo de sua existência – criar e manter relacionamentos pessoais amorosos e inteligentes. A palavra falada e ouvida une falante e ouvinte em um relacionamento completo; escrita e lida, se divide em fragmentos gramaticais, e é necessário reconstituí-la com a imaginação para que realize sua tarefa original. O leitor pode recusar a envolver seus sentidos, o que não acontece com o ouvinte ou o espectador. Deixados de lado, os sentidos se atrofiam, e a palavra escrita se torna cada vez mais abstrata. Alheias de quem as fala, as palavras são belas como as conchas, interessantes como os esqueletos e seu estudo tão proveitoso quanto o estudo dos fósseis. Mas, separado do ato de ouvir e responder, as palavras não funcionam de acordo com a intenção da pessoa que fala, pois a linguagem é, essencialmente, o meio pelo qual uma pessoa atrai outra a um relacionamento e à participação. Deus fala, declara que cria e salva, para que possamos crer, ou seja, participar confiantemente do processo de criação e salvação que ele está operando em nós. A revelação não visa informar, mas, sim, nos trazer a um envolvimento com Deus.
A história está repleta de casos nos quais as palavras, após serem escritas, perderam seu poder e se transformaram em substantivos classificados, verbos analisados, adjetivos admirados e advérbios discutidos. A bíblia não escapou a esse destino. Algumas das discórdias mais contundentes de Jesus se deram contra escribas e fariseus, indivíduos do primeiro século que conheciam muito bem as palavras das Escrituras, mas eram incapazes de ouvir a voz de Deus. Possuíam conhecimento amplo e meticuloso do texto. Eles reverenciavam as Escrituras. Eles as memorizavam. Usavam-nas para regular cada detalhe da vida. Por que, então, Jesus os censurou tão duramente? – Porque eles estudavam a Palavra, mas não a ouviam! Para eles, as Escrituras haviam se tornado um fim em sim mesmas; deixaram de ser um meio de ouvir a Deus. Separaram o livro do ato divino de declaração de mandamentos de aliança e promessas de boas novas. Isolaram o texto do ato humano de ouvir que leva à fé, ao companheirismo e ao amor. A tinta havia se transformado em fluido de embalsamento.
Apocalipse é a declaração enfática do Espírito no sentido de que as palavras escritas só cumprem sua função quando as ouvimos em um ato pessoal de vontade. Essa palavra final da Bíblia é, portanto, fundamentalmente, obra de imaginação – o ato da mente e da emoção pelo qual letras sobre o papel se convertem em vozes e visões dentro de nós.
Einstein afirmou, certa vez, que a imaginação é mais importante do que a inteligência. Isso significa que não pode haver pleno uso da inteligência sem imaginação. A imaginação transforma marcas no papel em imagens e sons que nos envolvem como pessoas vivas que ouvem, vêem e têm contato com a realidade. A famosa bênção que se encontra na primeira página de Apocalipse (1.3) não se destina aos que lêem em busca de informação ou de conhecimento. Ela se aplica aos que lêem em voz alta e aos que ouvem, reconstituindo assim as palavras com realidades orais e visuais que nos impulsionam a um encontro pessoal com o Deus pessoal. “Qualquer coisa pode nos levar a olhar”, disse o poeta Archibald MacLeish, “mas só a arte pode nos levar a ver.” Apocalipse faz ver isso: “Voltei-me para ver...” (1.2).

Do livro Trovão Inverso, pgs 36-38 – Eugene Peterson.

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