terça-feira, março 17, 2015

Sobre versões originais a respeito de Deus.


Percebi algo na relação fãs - artistas que reflete a tendência da grande maioria de cristalizar conhecimento, congelar versões e endeusar dogmas.
A primeira versão de um intérprete/cantor é recebida como "versão original" - o que já é uma sina. Para os fãs essa versão é incorrigível, definitiva e insuperável. Mas não somente a versão que por vir a fazer um outro intérprete da mesma obra é mal vinda. Se o mesmo intérprete ousa fazer uma nova gravação de sua versão original, variando no andamento, melodia, frases rítmicas os fãs o criticam.
O que acontece? Os fãs se afeiçoam de tal maneira à "versão original", que ousam limitar a cosmovisão, a imaginação e liberdade do artista! É quando a obra fica maior do que o artista, negativamente falando!
Ora, não peça a um artista que ele reproduza, que seja um genérico de si mesmo. Uma ofensa imperdoável.
Penso que essa tendência também se evidencia nas relações: "eu não te conheci assim!", "você mudou, hein!". E se repete cada vez que se deixa as ideias descansarem; quando não há diálogo com diferentes áreas do conhecimento.
Talvez, a tendência a que me refiro se mostra com força maior nas religiões, pois aí se congela versões "em nome de Deus".
Ora, o Espírito de Deus é o mais subversivo e artista de todos. A Revelação há que se contar em diversas versões - variações sobre o mesmo tema. Quando gente se afeiçoa acaloradamente à um dogma, não reconhece o Deus que ousou fazer diferentes interpretações da vida, fé, do homem e de si mesmo. As críticas vêm em novas versões da inquisição!
A força que move esse estreitamento não é só a afeição, mas também o desespero por uma ordem, sentido. E pior: a sede de controle e de poder.
É bom lembrar que nas Escrituras, Deus volta atrás, se arrepende e em muitos episódios se desdiz.
A Encarnação talvez seja a interpretação divina mas escandalosa e ousada. Aí Deus variou no tema, cores, texturas, verbetes, andamento, ideias, tom, harmonia.
Em Jesus, Deus diz "vocês ouviram o que foi dito, eu porém digo. .." É Deus desacatando as interpretações dos homens sobre Ele.
E não me queimem se eu falar que hoje o Espírito talvez dissesse sobre muitas coisas do Novo Testamento: "vocês ouviram o que eu disse [ou: o que escreveram sobre mim], porém, hoje eu digo a vocês..."
Interpretação é sempre interpretação. Uma simples leitura já é uma interpretação. Uma ideia sobre Deus não é Deus.
Sobre Deus não há versões originais e definitivas.

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

A Palavra

Não subestime uma palavra.
Uma palavra não é apenas uma palavra. Uma palavra são vários combinados.
Além de sentidos, uma palavra é som/música que diverte tantas crianças – onomatopéia, embeleza o texto e a poesia e corteja os amantes.
Uma palavra é uma imagem - “janela”; um afeto - “casa”; um cheiro - “jasmim”.
Uma palavra é uma cultura. Uma história.
Uma palavra são emoções.
A palavra é uma arma – disputa de poder, egos e vaidades. Uma violência emocional. A palavra é uma sentença, um preconceito.
Um pedido de socorro, uma despedida. Um desnudar-se.
Uma palavra é um beijo. Um amor. Uma palavra é uma esperança.
Uma palavra é um universo. Uma vida.
Um silêncio...
Uma palavra tem cor, calor e textura.
A palavra é Deus encarnado.
Toda palavra que humaniza é divina. A palavra, onde estiver - artes, ciências, religião - que me reivindica responsabilidade, que inspira a vida, que se empresta para cantar as contradições e dramas humanos, que planta esperança é de caráter divino.

“A Palavra se fez carne e nos habitou”.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Minha homenagem e gratidão aos poetas!



O poeta é um cristo que morre sem fazer ideia da repercussão das suas palavras. 

A despeito disso, sai a semear palavras generosamente. Profusão de sementes. Porque a esperança do poeta não é a glória, mas a sua vocação. O fazer poético é já a glória. No tempo do cio poético ele faz amores. E esses amores transcendem sua expectativa, o seu objeto, o mercado e o tempo. A poesia é maior que o poeta.

Como canta Milton Nascimento, os poetas “fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos/ que jamais são alcançados, cansados, cansados/ nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem/ escrevem o que sabem que não sabem/ e o que dizem que não devem.”

O poeta não percebe, mas está polinizando a vida com palavras e imagens, ventilando ideias com sons, fazendo terapia com símbolos, antecipando o futuro com metáforas, promovendo encontro com o sagrado.

O poeta é um utópico, profeta e sacerdote. Morre mudo e muitas vezes sem fé, mas não sem ter amado e prestado atenção à vida.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

A m a r a m a n d o

A m a r a m a n d o


A Mara amando
Inventa um mundo bom
Onde cabe toda gente
E não entra a perfeição
Ama mais e espera menos
Não sem angústia e pesar

Há mar amando
Há janelas, horizontes e sóis
Mais beijos e abraços
Ouro, trigo, vinho e mel
Nova folha, cor e pincel
Licença do perdão

Amar amando
No gerúndio teimoso
Contra o ego e preguiça
Ainda que seja feio e pouco
É o amor o remédio
Para a loucura e o tédio

Amar a mando
Não do Livro e das leis
Dos anjos e do Divino
O amor é generoso
A dor do outro é o apelo
Ao amor que é a sua cura

Márcio Cardoso

terça-feira, janeiro 27, 2015

O amor é maior do que a fé


Há uma história no livro de Gênesis que é um retrato da saga humana. A história de Hagar e seu filho Ismael, cujo pai é Abraão. Como Sara, mulher de Abraão não podia dar a luz, teve a ideia de usar Hagar como “barriga de aluguel” para resolver o problema da descendência de seu marido. Isso gerou muita confusão na casa do patriarca.

Hagar fugiu para o deserto pela primeira vez, mas voltou para a casa de Abraão. Depois de 14 anos, Sara, milagrosamente, deu à luz a Isaque. Confusão sobre confusão, pois agora não somente as mulheres disputavam, mas também os filhos, o que fez Sara coagir Abraão a expulsar a escrava com seu filho.

Hagar e Ismael vão para o deserto pela segunda vez. Mas agora acaba o pão e a água e a fé e força para viver. Hagar se afasta de seu filho para não o ver morrer e começa a gritar e a chorar.

No meio de sua crise, gritos e soluços, Hagar ouve a sugestão divina “levante-se, pegue seu filho e abrace-o!”. É o que faz Hagar: aperta o menino contra seu peito e então a vida renasce: Hagar percebeu um poço que sempre esteve ali.

O que salvou Hagar e Ismael não foi a fé, mas o amor.

O abraço – um gesto desprovido de sofisticação, certezas, teologias os devolveu à vida. Imagino que enquanto Hagar abraçava o seu filho pensava “meu filho precisa de mim, não vou desistir, não vou entregar os pontos, meu filho precisa de mim! Não por mim, mas por ele!"

O amor de Hagar pelo filho a salvou. A situação de Ismael reivindica o amor de Hagar. E o amor em ato salva os dois.

Responder por alguém nos cura, nos salva, nos devolve à vida. Amar nos livra de uma vida sem sentido. A resposta para questão do ser é amar.

Quando na bifurcação da vida, onde as certezas nos abandonam, onde nos vemos impotentes, onde nos falta a fé, o que pode nos salvar são os nossos amores.

Quando estiver encrencado não fique dando voltas em torno de si, mas se descentralize e ame a alguém.

Quantos projetos não colapsaram por causa da urgência de amar!

Um sacerdote não desistiu de sua vocação não porque ainda restasse fé, mas por se lembrar do bem que seu ofício fazia a algumas pessoas. Por essas pessoas o sacerdote não desistiu e no meio do caminho se re-encantou pela vocação.

Alguém desistiu de dar cabo da vida porque se lembrou de um carente: “fulano precisa de mim; por ele eu não posso tirar a minha vida!”

Um divórcio foi adiado porque os filhos ainda eram novos. O homem/a mulher adiou sair de casa e depois de algum tempo se apaixonou novamente pelo parceiro (a).

Relacionamentos de pais e filhos foram renovados porque os filhos, por amar, entenderam que os pais precisavam do seu perdão, porque ninguém é perfeito.

O amor é maior do que a fé. Agora entendo um pouco melhor o apóstolo.

Nos piores dias da sua vida, faça como Hagar, “se levante e abrace a alguém!”. A vida vai colar em você. Você vai colar na vida. Você terá boas razões para não desistir.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Deus não é perfeccionista.



No livro de Gênesis, na poesia da criação, há um refrão que o Criador repete de boca cheia ao contemplar a obra que havia feito: “Bom. Bom. Muito bom!”. A frase traduz muito mais um deleite, uma gratidão – festa da memória – do que uma constatação de ter alcançado a perfeição, o definitivo, o acabado.
Reflita. O Criador conseguiria ou não aperfeiçoar os mares, o sol, as estrelas? Melhorar um pêssego? Se sim, as estrelas, o sol, os mares, o pêssego não são perfeitos, apesar de serem maravilhosos! Mas para Deus já estava bom. Não estava perfeito, mas Deus deu por encerrada a sua obra. E com gratidão.
Lembre-se também da frustração de Deus com as decisões livres dos homens e mesmo assim sua estima, gratidão e esperança pela humanidade não se cansam.
Quem sofre com o perfeccionismo não se deleita porque não consegue terminar o que está fazendo. Nunca se dá por satisfeito porque nunca alcança a perfeição. “Bom” para um perfeccionista é muito ruim. Para ele tem que ser perfeito. Daí seus dias são marcados pela ansiedade, frustração, desgaste emocional e azedume.
O Criador soube terminar, parar. Certamente tinha mais criatividade para fazer outras coisas, mas escolheu um momento para quietude e deleite! A paz reside muitas vezes em sabermos “terminar” as coisas, respeitarmos as etapas, respeitarmos a dinâmica do nosso corpo, a saúde e qualidade de vida.
É compreensível que num mundo de concorrência onde nós somos medidos por resultados, fiquemos sempre com a sensação de que estamos devendo algo, que estamos ficando para trás, de que o que fizemos não foi bom. Mas isso é um ácido que corrói a nossa existência. Precisamos de outra medida de tempo que não seja o relógio.
O que marcava o tempo/período na criação de Deus não era o relógio, o calendário, as estações, mas a gratidão na boca do Criador “bom, muito bom!”. Era esse o refrão que pontuava os “dias” de Deus.
Nossos dias e dinheiro são medidos pelo tempo, nossa capacidade também. Chronos é um deus terrível que devora seus adoradores impiedosamente. A única chance que nós temos de não sermos devorados por esse deus (tempo) é o exercício da gratidão, do olhar gracioso para a nossa caminha que, apesar de não ter sido perfeita ou obtido o êxito que esperávamos, foi boa.
Nesse período onde mais um ciclo se fecha, escolha pontuar com gratidão e doçura e não com o relógio, com os números, com os sucessos.
Olhe com ternura e tolerância para a sua história. Talvez você tenha conhecido a frustração de não ver seus sonhos realizados, a decepção com as metas do ano, o inconformismo de ter se dado tanto e ter alcançado tão pouco, não ter conseguido atender às expectativas suas e de outros, mas se você foi decente e honesto no seu ofício já valeu à pena. Se você foi verdadeiro, íntegro e trabalhou: isso já é bom!
Lembre-se que muitas coisas não dependem de você. Há muitas outras forças que concorrem com os nossos desejos como o acaso, a autonomia da natureza e a liberdade humana.
Pare um pouco, veja quanta coisa boa já lhe aconteceu. Quanta vida você já viveu, como sua vida tem sido interessante. Cultive um coração grato pela vida, por aquilo que conseguiu realizar, por ter se mantido fiel/leal às suas ideias, pelo amigo Deus, pela sua família e amigos.
E para que esse exercício seja também solidário e inclusivo, use da mesma tolerância e doçura com o próximo. Ele é muito parecido com você!
Que você possa chegar ao final do ano e dizer “foi bom!”.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Verdade ou mentira?



A vida para ser boa pede socorro à fantasia. A boa fantasia. 

Um eufemismo. Uma versão menos jornalística das relações. Sublimação. Uma aposta no amanhã. Sonhos. O imaginado. O lúdico. O superlativo. A hipérbole. Metáforas. O "era uma vez...". Dar um desconto na história do outro. Desconto na sua própria história.

Se olharmos para a vida e relações objetivamente, de maneira cartesiana, jornalística sufocamos a esperança.

Se nossas interpretações dos textos e da vida pretendem ser jornalísticas, em busca da verdade, do "real" estaremos fadados a uma história ranzinza e ácida. E a solidão.

Apologia à mentira? Pelo contrário. A favor de mais verdades. Arejar e alargar as verdades. A favor das possibilidades.

Se bem que não podemos viver sem as mentiras também. Questão de sobrevivência muitas vezes! Sejamos honestos.

Quem sabe uma proposta para sermos mais modestos ao interpretar o mundo, as relações, as versões, a história. Uma sugestão para olhar além do "real" estabelecido - mentira combinada de uma "sociedade do espetáculo". 

Olhar por trás das versões que se cristalizaram. Por trás dos fatos que nos tiranizam e intimidam nossa liberdade e coragem de ser.

Como disse Leon Tolstoi "se descreves o mundo tal qual é, não haverá em tuas palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade”.


domingo, junho 16, 2013

O que me faz viver.


O que me encanta não é a simetria, a consonância, a perfeição (isso existe?); o que enche os meus olhos é a dissonância, a ambivalência, a assimetria.

O que me instiga não é a completude, mas a falta, o inacabado, o ainda não.

O que me faz viver não é a segurança, mas os medos; não a paz, mas a angústia.


O que me provoca não é a certeza, as respostas, mas a dúvida, a incerteza, as questões.

O que norteia a minha ética não é a polarização entre o "bem" e o "mal", o "certo" o "errado", o "branco" e o "preto", ..., mas as diversas matizes entre eles!

O que me dá esperança não é o determinismo seja qual for, no qual não acredito; mas o acaso, a imprevisibilidade, o caos.

O que me fascina não é uma vida angelical ou vida pós morte, que eu não conheço, do qual podemos falar pouco, mas a Vida humana como ela é!

O Reino de Deus está entre nós, nesse chão assimétrico, contraditório, livre, incompleto, imperfeito, polifônico, polirrítmico, criativo e cheio de possibilidades.


segunda-feira, maio 06, 2013

Oração de invocação. Quem invoca a quem?


“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”

Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena!

Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório.

Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da vida. A presença de Deus é a causa da nossa existência; só vivemos porque vivemos Nele.

Orar é compartilhar com Deus, é um desabafo e não uma técnica. Não devo confiar mais em minha oração do que em Deus. Não é porque orei “corretamente” que Deus vai fazer alguma coisa. Deus não se põe em movimento por causa da oração. Deus é pura gratuidade!

Como eu vou orar sabendo que Deus não se “move” por causa da oração? Como serão minhas palavras em oração, sabendo que Deus não está “fora” para que tenha que intervir, mas que está envolvido até ao pescoço com a minha história? Como serão os termos de minha oração sabendo que eu vivo, que eu me movo e existo em Deus?

Oração de invocação quer chamar mais a minha atenção do que a atenção de Deus. Quando eu digo “vem, e visita o seu povo”, na verdade quero convocar os meus sentidos à presença de Deus: “vem, minha alma, abre os seus olhos para Deus, ouça o que Ele diz, perceba a sua presença!”. Porque na verdade não sou eu que estou esperando algo de Deus; mas é Deus que espera algo de mim. A pergunta não é minha - “onde está Deus?”, mas a pergunta é de Deus - “onde está você? Onde está o seu irmão?” (Gênesis 3,9; 4.9).

Não sou eu que invoco a Deus; é Deus que me invoca para eu dar conta de minha existência e cuidar do meu semelhante! Que vocação nobre e cheia de significado!

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quinta-feira, maio 02, 2013

Quem segue a Jesus não vive em paz!



Para dar conta do “terror cósmico”, os nossos ancestrais criaram mitos. Para lidar com os medos e insegurança o humano precisou se cercar de uma ordem, uma rotina, uma narrativa. Para se organizar, o ser humano constrói um mundo de sentidos. Diante do absurdamente inexplicável ousamos nomear.

Nesse mundo de sentidos encontramos tudo o que diz respeito à cultura: a linguagem, comida, modo de se vestir, o pensamento, a teologia, as “tribos”, os guetos, a urbanização, ritos de passagem, artes e outros. Tudo para promover certo sentido, orientação, segurança, ordem e paz. Nada mais humano!

Mas quem se atreve a ser um discípulo de Jesus tem esse mundo de sentidos bagunçado vez por outra!

Parece-me que a caminhada de Jesus é sempre na contra mão de uma vida organizada definitivamente, de uma fé pronta, de uma zona de conforto, do egocentrismo, da indiferença, da alienação, do sossego entorpecente.

Quem segue a Jesus não pode viver em paz! “Eu não vim trazer a paz...”

A sua teologia desestabiliza e nos deixa sempre a perguntar: “quem é esse?”. A sua teologia é subversiva porque à favor da vida; e porque é a favor da vida se relativiza por amor. “Vocês ouviram o que foi dito, eu, porém vos digo”. E quando ouso pensar, fazer jus ao espírito livre de Jesus... ah, sou taxado de herege, não posso viver em paz.

O seu engajamento é uma ameaça ao status quo; uma ameaça ao meu conforto, uma pergunta que me comissiona! E se eu digo sim, sou perseguido: nada de paz, mas “guerra”.

O seu amor/ compaixão é que faz a sua agenda. Jesus é refém do seu amor. Porque ama não tem onde reclinar a cabeça! Quantas vezes ele desejou descansar com seu amigos ou sozinho, mas quando a vida do outro se lhe impôs ele adiou a folga.

Quem abraçou o forte apelo de Jesus pela justiça não consegue não se revoltar frente às injustiças, corrupções e desigualdades. Sossego?

Quem foi alvo do amor incondicional de Jesus não fica em paz quando assiste cenas de intolerância religiosa. E quem se arrisca a lutar pelo direito das minorias é "apedrejado".

Quem foi driblado ao tentar colocar Jesus numa categoria não pode descansar as suas ideias, as suas crenças; não pode organizar a sua fé definitivamente.

Quem viu Jesus abrindo as portas para estrangeiros, gentes de outra fé, de outras tribos não pode se fechar num quintal religioso, numa fronteira xenofóbica; não pode fechar as portas da sua. "A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos!"

Qualquer movimento que, em nome de um mundo de sentidos, quer uniformizar o grupo, organizar definitivamente a fé, promover uma paz alienada, dar a sensação de segurança dentro de um gueto é contra a vida cristã.

Obviamente, o homem precisa desse universo de sentidos para não enlouquecer, mas esse universo não pode paralisar o fluxo do pensamento, dos relacionamentos, da fé e do vento do Espírito.

Quem segue a Jesus não descansa a cabeça!