segunda-feira, outubro 13, 2014

Quem posso ser?



Uma das mais belas cenas da bíblia é o reencontro de Jacó com seu irmão, Esaú:

“Esaú correu ao encontro de Jacó e o abraçou e beijou. Os dois choraram. (…) Disse Jacó: ‘quando vi o seu rosto, foi como se tivesse visto o rosto de Deus sorrindo para mim’.”

O que há nessa cena de tão especial? O seu contexto…

Jacó fugiu de casa jurado de morte por Esaú. Uma série de atrapalhadas na família disseminou um desafeto entre os dois. Certa vez, Esaú voltando faminto de um dia de caça, desejou um cozido, especialidade de Jacó. O irmão, sabido, sugeriu uma permuta a Esaú: “o seu direito de filho mais velho pelo meu prato!”. Esaú topou. O primogênito não teve os olhos maiores que a barriga, mas a barriga maior do que a cabeça.

Além dessa cena, Jacó, por sugestão da mãe (Rebeca), engana seu pai (Isaque) que de tão velho já não enxergava bem.

Isaque havia falado para Esaú que antes de morrer queria abençoá-lo, e o pediu que fosse caçar e depois fizesse seu prato predileto e levasse a ele. Esaú foi à caça.

Rebeca, ouvindo a conversa dos dois, se apressou para coagir seu queridinho Jacó do seu plano genial. Rebeca vestiu Jacó com as melhores roupas de Esaú, colocou em sua nuca e mãos peles de ovelha, pois Esaú era peludo. Meio a contragosto, Jacó segue com o plano. Ele se passa por Esaú, enganando o seu pai, e ganha a benção que seria de seu irmão.

Quando Esaú fica sabendo da sabotagem fica furioso e jura de morte Jacó, que foge para casa do seu tio (Labão) e ali constrói o seu pé-de-meia: junta muitos animais, empregados, casa e tem 11 filhos.

20 anos depois, na volta para casa, Jacó fica sabendo que Esaú vai ao seu encontro. Pouco antes desse encontro, Jacó fica sozinho num vale e trava uma luta com um ser misterioso que o escritor da história dá o nome de “Anjo de Deus” ou “Deus”.

A luta que Jacó trava consigo mesmo, a construção da sua identidade, a luta com o seu outro “Jacó” é tão intensa que a melhor metáfora é “Deus”.

Jacó está apavorado, pois lembra que seu irmão lhe jurou de morte. Em seu solilóquio-oração-crise existencial, Jacó se pergunta “quem sou eu?”, “que tipo de pessoa eu quero ser?”. “quem vou me encontrar com Esaú?”

O texto não diz, mas tenho a impressão que Esaú, durante a saga-caça da vingança, faz a mesma pergunta: “vou me vingar do meu irmão ou vou dar um cheiro em seu cangote?”, “derramo sobre ele o meu fel ou toda a minha saudade?”, “eu chego diante de Jacó como vingador ou como irmão”, “revejo meu irmão com face de ódio ou sorrindo. Com cara de um Diabo ou cara de Deus?”

Esaú escolhe o amor. Em vez de continuar sua história como um ressentido, acolhe seu irmão com abraço e beijo; em vez de escrever o capítulo da sua história com a imagem de um adversário, escreve com a imagem e semelhança de Deus.

Agora, se coloque atrás de um arbusto próximo ao Vale de Jaboque há 4 mil anos e veja a cena novamente:

“Esaú correu ao encontro de Jacó e o abraçou e beijou. Os dois choraram. (…) Disse Jacó: ‘quando vi o seu rosto, foi como se tivesse visto o rosto de Deus sorrindo para mim’.”


Eis uma boa pergunta que pode orientar as nossas escolhas e maneira de viver as relações: “qual o seu nome?”.


quarta-feira, julho 16, 2014

Deus é uma projeção humana?


Mais uma vez há que se fazer uma reverência a Freud que dizia que Deus é um pai idealizado, Deus é uma projeção humana. Muitas ideias sobre Deus nascem de nossas frustrações, idealizações, inveja, avareza, desejo de vingança, justiça com as próprias mãos. Deus nasce de nossa personalidade e sonhos.

Um exemplo simples. João Batista se referindo a Jesus disse “importa que ele cresça eu diminua”. Uma interpretação equivocada dessa frase diz que a minha humilhação resulta na exaltação de Deus, que para Deus ser glorificado eu tenho que me diminuir. Resultado disso é o culto da depreciação humana.

Mas Deus não é assim: Deus não precisa da minha diminuição para ele aparecer. Isso é um reflexo da condição humana: há pessoas que sim, precisam diminuir as outras para serem vistas. Há quem deprecie as conquistas do outro, use de maledicências, sublinhe os erros do outro para aparecerem.
Sim, em muitos casos, Deus é o reflexo da condição humana e suas projeções. Essa ideia sobre Deus tem tantas sombras e luzes como tem um humano. Mas Deus não é nem aquilo que eu não consigo ser e nem aquilo que eu sou. Deus é outro. Quem?

Como fazer teologia sem ficar refém da subjetividade e idealizações. Deus pode ser mais do que as nossas projeções e expectativas? Deus não é um reflexo de quem somos nós? Há como não fazermos caricaturas do Divino? A Revelação não é sempre fruto de minhas projeções e expectativas?

Eu penso que a dificuldade reside na afeição a um Deus metafísico, sem rosto, um Deus autoritário e vingativo que tem como metáforas mais usadas o Rei, o Soberano e Senhor.

A Revelação não nasce de ideias etéreas lançadas sobre um Deus que olho nenhum viu. De onde então? De Jesus de Nazaré, o Deus encarnado. Ele é a imagem do Deus invisível.

Caricaturas horríveis nascem porque deixamos de olhar para o Deus encarnado em Jesus, o Deus que é imitável, o Deus cuja maneira de viver podemos imitar. Revelação não é uma projeção num Deus metafísico, Revelação é o Jesus Nazareno lançando luzes sobre a nossa humanidade. Revelação não nasce de ideias etéreas lançadas num vácuo sem rosto, num hipotético Ser que é fruto de meus “melhores” pensamentos. Revelação nasce dos pés empoeirados de Jesus que desejou iluminar a vida, os valores, as relações dos humanos.

Mas aí fica outra pergunta: que Jesus? Porque o que chegou a nós sobre Jesus é o escrito de apóstolos, homens como nós, que escreveram a partir de suas perspectivas, crenças, visão, expectativas e também projeções. Esse “Jesus” também carece de interpretações.

Daí a necessidade de colocarmos as nossas ideias sobre Deus numa roda de conversa e que essa roda de conversa se abra para outra roda de conversa, constantemente e progressivamente, dialogando com outras áreas do conhecimento numa ciranda de tolerância e apreciação do outro.
Quem sabe assim teremos uma faísca da Revelação, um vislumbre da glória de Deus.


quarta-feira, maio 28, 2014

Humanos e isso nos basta.


Acredito que as frustrações das pessoas, o desânimo, sempre "estar aquém", vontade de desistir em diversas áreas da vida - trabalho, religião, relacionamentos, família - nascem de suas idealizações, expectativas exageradas, o desejo por uma situação ideal.
E ainda por cima, o jogo de aparências da sociedade nos faz sentir que estamos ficando para trás, perdendo algo, fracassando em muitos aspectos.
Mas deixa eu contar um segredo: há muita encenação, mito, mascaramento nas pessoas que vemos passar. "A grama do vizinho é mais verde", diz o ditado popular.
Pessoa "bem resolvida" é um mito. Bem resolvida é a pessoa que já morreu. Casais bem resolvidos, filhos bem resolvidos, mãe bem resolvida, pai bem resolvido, relacionamentos bem resolvidos...tudo isso é um mito que nos enche de uma culpa indevida.
Nós somos seres humanos, frágeis tentando dar conta da sobrevivência, da criação, da educação, da espiritualidade. Tudo o que conseguimos ser é humanos. E esse é o pé de igualdade do rico, do pobre, do casado, solteiro, viúvo, desquitado, da mãe/pai solteiro, do filho, adolescente. De perto, todos nós somos um lindo drama. Uma história complexa, rica, cheia de potencialidades.
E nessa caminhada podemos ter a graça de encontrar pessoas humanizadas. Podemos ser a graça de pai, mãe, parceiros, filhos, irmãos humanizados, que não esperam do outro mais do que nós mesmos podemos dar.
Siga o conselho de Nietzsche "espere menos, ame mais". O melhor lugar é onde você está. Você pode fazer o ambiente. O tempo com seus queridos, ainda que seja pouco, pode ter a qualidade de uma eternidade se você não esperar mais nada.
Você pode fazer as pazes com sua história, com suas contradições, com seus fracassos, com sua personalidade, com seu jeito esquisito, com suas manias. Quem disse que você precisa ter um "perfil ideal" para ser feliz, aceito, amado? Todos nós, feios, bonitos, altos, baixos, magros, gordos, tímidos, carismáticos, "pavio curto", culto, indouto, enrolados em nossas fragilidades somos dignos de amor e perdão.
Não se culpe por ser humano! Ao seu lado você pode encontrar um outro humano e compartilhar a vida.

segunda-feira, abril 14, 2014

Compaixão.


Na parábola do bom samaritano é comum “descermos a lenha” nos líderes religiosos, na religião, na igreja. Ainda mais que, nos últimos anos, se abateu uma onda de “decepcionados com a igreja” (eu reconheço que em alguns casos, legítimo).

É certo que na parábola Jesus critica uma religião ensimesmada, mas focar apenas no levita, sacerdote e instituição pode ser uma transferência de responsabilidades, matar um “bode expiatório” para se ver livre da “culpa”.

Portanto, proponho algumas paráfrases colocando outros personagens que, semelhante ao sacerdote e levita, fizeram vista grossa de tão ocupados com o conforto, trabalho e lazer. Como vocês já sabem o começo da parábola, eu sigo da segunda parte.

“Ia passando uma jovem senhora que ia ao salão de beleza. Quando viu a vítima do assalto à beira do caminho resolveu passar adiante, pois tinha hora marcada para cuidar da estética”.

“logo em seguida passou um rapaz que aparentava seus 25 anos, que também viu aquele pobre semimorto, mas como só tinha aquele horário para malhar, teve que acelerar seu carro”.

“Num carro utilitário, vinha numa certa velocidade uma família que estava saindo de férias. O carro teve que parar no semáforo. Todos olharam para o moribundo, mas quando abriu o semáforo, seguiram viagem voltando às histórias e gargalhadas de antes”.

“O miserável, já próximo da morte, ainda conseguiu ver um homem que passou desacelerando o seu carro fitando-o. Pensou que ele iria parar e ajudá-lo, mas ele não sabia que se tratava de um empresário que naquela hora tinha um negócio muito rentável para fechar”.

“O desgraçado à beira do caminho já fazia parte do cenário, mesmo contrastando com uma natureza verde e viva, com um trânsito intenso e transeuntes saudáveis. Passou o pedreiro com a sua marmita expressa, passou o gari com sua demanda de trabalho, o carteiro com seus passos rápidos e largos, um trabalhador responsável, o catador de papel contente com o que havia juntado, o professor exaurido por uma turma complicada, o corredor de rua para bater o seu recorde, mas ninguém se aproximou daquele desconhecido. “Vai que eu me complico!”. Ninguém teve compaixão, nem eu que queria terminar um texto que deixei inacabado.”

“Todos tinham boas razões para não amar. Na verdade tudo era um álibi forte para um ego vencedor”.

Mas ainda falta um substituto para o “bom samaritano”. Quem seria? Há! Pense em um de seus desafetos. Não tem? Seja honesto! Tá, então, se você acha mais confortável, pense num “distante” que você reprova.

“Um dos seus desafetos (ou quem você reprova), que naquele dia juntava vários ‘álibis’ justificáveis; como todos, com suas contradições internas, demandas de sobrevida e procriação, viu o desvalido já desacordado e se descentralizou. Teve compaixão dele, prestou todo socorro e pagou todas as despesas. Deixou um buquê de cravos e saiu preocupado com a educação dos seus filhos, o desencontro com a esposa e o fracasso nos negócios. O desgraçado, agora favorecido, nem chegou a conhecer o rosto do seu benfeitor. Quem sabe era um dos seus desafetos!”.

Ter compaixão é ignorar as boas razões para não fazê-lo.





sexta-feira, abril 04, 2014

Melhor do que o Céu.


O fascínio de alguns religiosos pelo céu me parece com uma negação da vida, um escapismo, uma desistência, um suicídio ao avesso.

Se bem que esse fascínio não passa de uma falácia piedosa, porque eu
não acredito, por exemplo, que exista alguém em sã consciência e saúde, que hoje deseja a morte, despedir-se de sua família, deixar os seus queridos para "ganhar" os céus.

Céu como negação da vida é anti-Deus, anti-Cristo. Um céu que abra mão de uma história da humanidade com toda a sua complexidade, erros e acertos, feiuras e belezas não é um céu, mas um inferno.

Uma ideia de céu que gera religiosos que protelem felicidade e, de maneira irresponsável vivam alienados no aqui e agora sem o mínimo de engajamento não merece ser chamado de céu.

Também desconfio que a ideia de céu que muitos religiosos alimentam é a de um prêmio, uma recompensa que afirme o seu ego-umbigo, que justifique vaidades e a sede de poder. Uma felicidade sádica de quem se alimenta em constatar que muitos não têm o que ele tem.


Semelhante a uma pessoa que tem um deleite não apenas no carro muito caro, mas principalmente em ver que muitos não têm aquele carro. Ele é uma exceção. Assim, o céu entra na lista dos bens de consumo de pessoas que mais felizes ficam se menos gente possui o que eles têm. Para a grande maioria se achar uma exceção é o céu!

Vida pós morte é uma verdadeira incógnita. Como, onde, quando ninguém sabe objetivamente.

Quando Jesus afirma “... voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” e “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”, em outras palavras, Jesus está dizendo que o lugar para onde se vai é ele próprio, e o caminho como se vai também é ele!

O destino final não é um lugar geográfico, e sim uma pessoa - o próprio Jesus! O caminho que leva até ele mesmo não é uma filosofia, um dogma, uma teologia – o caminho é o próprio Jesus! “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida”.

Qual o lugar? Jesus é o lugar! E qual é o caminho? Jesus é o caminho. Jesus é o fim em si mesmo e não um meio para alcançarmos alguma coisa.

Santo Agostinho disse que "existem coisas para serem desfrutadas e coisas para serem usadas".

As coisas que desfrutamos são um fim em si mesmo – uma manga rosa! As coisas que usamos são ferramentas de trabalho – a faca que corta a manga rosa! Jesus não é faca que corta a manga rosa, Jesus é manga rosa! Jesus não é uma ferramenta, Jesus é o fim em si mesmo!

Alguns pensam no céu como aquilo que Deus tem de melhor para nos oferecer! Mas não é! Deus não tem nada mais precioso a nos oferecer a não ser Ele mesmo. Nenhuma fortuna, bem material, talento, milagres, prazer, e nem mesmo o céu, se comparam ao imenso valor de Deus Pai.

Onde é o céu? Onde Jesus está! Do que é feito o céu? É feito de Jesus! É melhor do que ruas de ouro e mar de cristal.


quinta-feira, março 13, 2014

O culto da autodepreciação: uma falsa negação do ego.


Certa vez Jesus falou “se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo”.

Tenho observado um blefe em muitos cultos cristãos: uma negação do ego que se confunde com autodepreciação. Uma falsa negação. Autoengano. Há um pseudo-ego escolhido como bode expiatório que esconde o verdadeiro ego, este sim, que deve ser negado.

E, curiosamente, esse pseudo-ego é o que o homem tem de bom. Esse pseudo-ego tem sido sacrificado de maneira masoquista à custa de castração dos prazeres bons da vida; uma negação do ego pautada na culpa, no medo, numa ameaça “em branco” do apóstolo-pastor-padre-guru “se você está assim é porque tem pecado escondido”. Enquanto o verdadeiro “ego”, que deve ser tratado, reina soberano...

Enquanto se canta “não há nada de bom dentro de mim, Deus”, “Senhor, eu sou um balde de lixo” – autoflagelo gospel, se alimenta um egocentrismo, ganância e individualismo sem tamanho.

Enquanto religiosos se mutilam com palavras depreciativas que diminuem o ser humano, que negam sua beleza, constituição e valor – numa falsa tentativa de negar a si mesmo, no interior cresce o eu-deus com projetos mesquinho pessoais de felicidade. 

Todo movimento da religião gira em torno da primeira pessoa – “meu Deus”, “meu pão”, “minha benção”, “minha fé”, o outro que se vire – cada um por si e Deus ao meu favor!.

Eugene Petterson, responsável pela tradução da bíblia “A Mensagem”, diz que a primeira conversão que o evangelho opera em nós é a gramatical: “nós” ao invés do “eu”; “nosso” ao invés do “meu”. (Jesus aponta para isso na oração que nos ensinou!)

Enquanto com palavras superficiais mágicas mutila-se o pseudo-ego, no coração – fonte de morte e vida – cresce o demônio-câncer do ego muito interessado em vaidades, prestígios, sucesso, poder, mesmo que para isso tenha que derrubar também o outro ou viver indiferente às necessidades do próximo.

Não se destrona o deus-ego com palavras superficiais autodepreciativas, mas com amor ao diferente. Não se “nega a si mesmo” com palavras rituais de autoflagelos, mas afirmando o humano, dando condições de vida a quem não tem, saindo da zona de conforto e servindo ao diferente.

Não se nega o ego com desamor a si, mas com amor ao próximo.

quarta-feira, março 12, 2014

“Sozinho, Deus, eu não entro contigo na Terra Prometida.”


Sobreviver e procriar, uma roda gigante de demandas. Todas as ações na vida humana querem dar conta de uma sobrevida e procriação. Tudo o que queremos evitar gira em torno da perpetuação de nossa família, e sem dor.

Logo, a proposta religiosa de uma vida com privilégios, facilitações, sem sofrimento, com atalhos é tentadora. E se isso for possível em troca apenas de uma quantia em dinheiro, de uma ascese e cumprimentos religiosos, melhor ainda.

Quem não deseja viver mais e melhor? Quem não deseja uma vida longa e saudável para sua família? Quem não deseja estabilidade financeira? Quem não deseja ver seus filhos longe das drogas e crescendo nos estudos, com sucesso na vida amorosa e profissional? Quem não deseja uma vida sem más surpresas, sem acidentes, assaltos, tragédia, mortes, doença?

Sobrevida e procriação com dinheiro e sem dor, uma oferta tentadora das igrejas do sucesso. Mas uma falsa promessa. Ilusão. Autoengano. 

Se Jesus fosse cearense teria dito “rapadura é doce, mas não é mole não!”, mas o nazareno disse “no mundo tereis aflições!”. Lógico. Crescer, sobreviver, ter filhos, educar, se manter casado, se relacionar dói e muito!

O oportunismo das igrejas “da prosperidade” diante da demanda humana de sobrevivência e procriação, afoga o homem no seu egocentrismo. Em nome de Deus, esse crente adora o ego.

É somente para isso que vivemos, sobreviver e procriar? É certo que são demandas necessárias e urgentes, mas podem se tornar armadilhas para uma vida mesquinha, feia, arrogante, egoísta, infernal, intolerante, indiferente com a dor do outro de tão voltada para o seu umbigo.

Quiça essa sobrevivência contemplasse a sobrevida do outro, do diferente! Oxalá a minha procriação contemplasse uma vida de qualidade para o meu próximo-distante (o não parente), aquele que não é próximo, mas de quem eu tenho que me fazer próximo.

Mas o que eu percebo é que há uma competitividade no estádio olímpico das religiões: cada um que garanta o seu, cada um que ponha a sua fé para “funcionar”. E que “deposite o seu dinheiro”.

Poucos perceberam que o outro-diferente-distante-estrangeiro é a resposta para questões ontológicas do homem; que o outro pode me salvar do câncer do ego; que o estrangeiro/diferente pode me socorrer da adoração ao Deus-Eu.

Se uma religião não estiver inspirando em seus adeptos generosidade, altruísmo e cooperação, essa religião é maligna. Se um crente não estiver sendo incomodado a sair de sua “zona de conforto” para socorrer o diferente, esse homem não adora a Deus, mas ao ego-diabo. Se tudo em que um fiel se ocupa na vida é seu projeto pessoal de felicidade, ele precisa repensar a sua fé.

Falta gente como Moisés que na sua história com Deus disse “se o meu povo não for comigo, eu não irei. Sozinho, Deus, eu não entro contigo na Terra Prometida.”


Ah, eu queria ver essa fé de Moisés entre nós, uma fé que sem outro não tem benção, sucesso, sobrevida, procriação; uma fé que sem o outro não tem Deus.

P.S. Devo ao meu amigo Jansen Viana a lembrança da história de Moisés.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Verdade ou mentira?



A vida para ser boa pede socorro à fantasia. A boa fantasia. 

Um eufemismo. Uma versão menos jornalística das relações. Sublimação. Uma aposta no amanhã. Sonhos. O imaginado. O lúdico. O superlativo. A hipérbole. Metáforas. O "era uma vez...". Dar um desconto na história do outro. Desconto na sua própria história.

Se olharmos para a vida e relações objetivamente, de maneira cartesiana, jornalística sufocamos a esperança.

Se nossas interpretações dos textos e da vida pretendem ser jornalísticas, em busca da verdade, do "real" estaremos fadados a uma história ranzinza e ácida. E a solidão.

Apologia à mentira? Pelo contrário. A favor de mais verdades. Arejar e alargar as verdades. A favor das possibilidades.

Se bem que não podemos viver sem as mentiras também. Questão de sobrevivência muitas vezes! Sejamos honestos.

Quem sabe uma proposta para sermos mais modestos ao interpretar o mundo, as relações, as versões, a história. Uma sugestão para olhar além do "real" estabelecido - mentira combinada de uma "sociedade do espetáculo". 

Olhar por trás das versões que se cristalizaram. Por trás dos fatos que nos tiranizam e intimidam nossa liberdade e coragem de ser.

Como disse Leon Tolstoi "se descreves o mundo tal qual é, não haverá em tuas palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade”.


domingo, junho 16, 2013

O que me faz viver.


O que me encanta não é a simetria, a consonância, a perfeição (isso existe?); o que enche os meus olhos é a dissonância, a ambivalência, a assimetria.

O que me instiga não é a completude, mas a falta, o inacabado, o ainda não.

O que me faz viver não é a segurança, mas os medos; não a paz, mas a angústia.


O que me provoca não é a certeza, as respostas, mas a dúvida, a incerteza, as questões.

O que norteia a minha ética não é a polarização entre o "bem" e o "mal", o "certo" o "errado", o "branco" e o "preto", ..., mas as diversas matizes entre eles!

O que me dá esperança não é o determinismo seja qual for, no qual não acredito; mas o acaso, a imprevisibilidade, o caos.

O que me fascina não é uma vida angelical ou vida pós morte, que eu não conheço, do qual podemos falar pouco, mas a Vida humana como ela é!

O Reino de Deus está entre nós, nesse chão assimétrico, contraditório, livre, incompleto, imperfeito, polifônico, polirrítmico, criativo e cheio de possibilidades.


quinta-feira, maio 23, 2013

ESTRANHO ÍNTIMO MEU


Experimentar Deus é algo um tanto complexo. Como que alguém pode interagir com o Eterno Mistério? Como ser interlocutor do Invisível, daquele que nos escapa às palavras, daquele que está para além de nossas ideias ao seu respeito? Com que Deus nos encontramos quando oramos? Nós nos encontramos com Deus ou com nossas representações de Deus?

Fico admirado com a “intimidade” melosa de alguns religiosos com o seu deus, que para mim se assemelha mais a uma blasfêmia. Chega-se diante de um Deus que se conhece a priori. Chega-se diante de um Deus que já foi formatado, sistematizado, categorizado, como se Deus fosse um fenômeno que pudéssemos capturar. Por isso em alguns meios religiosos, a apreensão da “Verdade” é idolatrada!

A grande confiança está nas representações que se tem de Deus. Os encontros com Deus são ancorados nas ideias que se tem ao seu respeito, e assim acaba-se chegando diante de um ídolo. Sobre a parábola do fariseu e publicano, Rubem Alves diz “o fariseu ajoelhou-se diante do Deus verdadeiro e orou a um ídolo. O publicano ajoelhou-se diante de um ídolo, e orou ao Deus verdadeiro”.

Qual o lugar das representações, das imagens de Deus? Qual o lugar da teologia? As ideias que temos a respeito de Deus são importantes para o diálogo entre nós; são símbolos e signos que viabilizam os relacionamentos. As representações que temos de Deus modelam a nossa moral e ética e desenham a nossa cosmovisão. Mas as nossas representações de Deus não são Deus. A nossa teologia é importante para a nós, mas ela não é Deus.

É óbvio que sempre teremos que lidar com imagens de Deus, e que elas sejam cada vez mais geradoras de humanidade. Dizer que Deus é o Mistério não deve cessar as nossas conversas. Lembro-me de Leonardo Boff quando diz que Deus não é o limite de nossa razão, mas o ilimitado de nossa razão. As imagens sobre Deus sempre teremos, no entanto, precisamos ser iconoclastas; as representações de Deus devem ser derrubadas vez por outra. Vez por outra precisamos suspender as nossas ideias sobre Deus, principalmente quando se fala em oração.

Penso que na oração, chegamos sempre diante do Estranho; daquele que eu não sei quem é. Eu chego sempre diante do Outro. Nós estamos diante do “Não sei!”, do Imponderável, como diz Jean-Yves Leloup, do “Nada do Tudo cuja Causa é Ele”.

Eu me simpatizo com a teologia de Gilberto Gil em sua canção “Se eu quiser falar com Deus”: Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que me aventurar/ Tenho que subir aos céus/ Sem cordas pra segurar.
Penso que seja assim. Se eu quiser falar com Deus eu preciso derrubar as imagens de Deus, desvencilhar-me dessa confiança na ortodoxia tão cara aos fundamentalistas; soltar as cordas de uma piedade que “capturou” Deus como fenômeno. Eu preciso soltar a âncora vaidosa do tecnicismo, do pragmatismo, do cientificismo e do racionalismo. 
Em entrevista a Revista Cult, Mateus Nachtergaele disse algo que achei genial: “acreditar em Deus é matar Deus. Você não tem que acreditar naquilo que existe. O que é é. Ponto.” Para lembrar de Gianni Vattimo, eu preciso considerar frágil e débil minhas verdades sobre Deus.
Eu posso me permitir à aventura de adorar a Deus em espírito. “Em espírito” não é “em transe”. Não! “Em espírito” é como vento, como um pássaro selvagem que voa, voa livre de qualquer confiança em verdades.

Isso não nos lança num desespero? Sim, maravilhoso desespero e estranhamento, pois é um salto no escuro, é subir sem cordas para segurar, é velejar na contingência do oceano, é se aventurar nas profundezas do abismo. Mas e daí, se é Nele que “nós vivemos, nos movemos e existimos”? O nosso vazio, ânsia, busca acontecem em Deus, e não a parte de Deus.

Quem garante o Encontro não são minhas verdades a respeito de Deus, quem garante o encontro é a graça de Deus. O chão, o ar, o oceano, o abismo onde nos aventuramos em oração e adoração são a graça de Deus. O Encontro é possível porque o Sagrado, transparente a tudo e a todos, nos busca.