terça-feira, abril 28, 2015

Todos os caminhos levam a Deus?


Nenhum caminho leva a Deus!
A Deus não podemos encontrar. Se o encontrássemos Ele já não seria Deus, mas um ídolo. Deus não é uma coisa, uma matéria, um fenômeno que eu posso "encontrar". Moisés até desejou. Na narrativa bíblica ele pede a Deus para ver seu rosto. Deus combina que vai passar com as mãos no rosto de Moisés e depois tirá-las. Moisés viu apenas suas costas.
De Deus nós temos vestígios, lampejos, feixes de glória. E já é muito bom!
Mas Deus não está num lugar, pois que que todos os lugares estão nele.
Nenhum caminho leva a Deus.
Não sou eu que encontro Deus, é Ele que me encontra.
Nenhum caminho leva a Deus, pois Deus é o caminho que emerge nos mais confusos descaminhos, através das encruzilhadas mais tenebrosas, no meio dos labirintos mais escuros da alma.
Uma epifania, teofania não depende de minha competência na busca, do raciocínio lógico, capacidade religiosa, mas de sua doce graça que tomou a iniciativa. Nós o amamos porque ele nos amou primeiro.
Portanto, podemos ter a confiança que se estivermos enganos com relação a Deus, atrapalhados em nossas escolhas ruins, em crises de fé, enfiados em pavores terríveis, no vale de sombra morte, até ali o amor de Deus nos alcança e sua mão nos encontra. Ufa!

quarta-feira, março 18, 2015

Um credo... precário e provisório.


Creio em Deus Pai, fonte de toda criatividade e beleza, doador da liberdade e promotor de autonomias;
em Jesus Cristo que encarnou o divino e o aproximou de nós e que com sua vida, obra, morte e ressurreição pode nos salvar de uma vida oca. Sua justiça é graça universal.
Creio no Santo Espírito, sopro divino que sopra livre entre nós e é sempre uma surpresa. Ele inspira uma comunidade de conspiradores do bem que as religiões não reconhecem e que eles mesmos não se percebem como tais. São discípulos anônimos de Cristo!
Creio na ressurreição dos vivos, na vida antes da morte e num eterno agora, desde já . 
Amem. Amém!

terça-feira, março 17, 2015

Sobre versões originais a respeito de Deus.


Percebi algo na relação fãs - artistas que reflete a tendência da grande maioria de cristalizar conhecimento, congelar versões e endeusar dogmas.
A primeira versão de um intérprete/cantor é recebida como "versão original" - o que já é uma sina. Para os fãs essa versão é incorrigível, definitiva e insuperável. Mas não somente a versão que por vir a fazer um outro intérprete da mesma obra é mal vinda. Se o mesmo intérprete ousa fazer uma nova gravação de sua versão original, variando no andamento, melodia, frases rítmicas os fãs o criticam.
O que acontece? Os fãs se afeiçoam de tal maneira à "versão original", que ousam limitar a cosmovisão, a imaginação e liberdade do artista! É quando a obra fica maior do que o artista, negativamente falando!
Ora, não peça a um artista que ele reproduza, que seja um genérico de si mesmo. Uma ofensa imperdoável.
Penso que essa tendência também se evidencia nas relações: "eu não te conheci assim!", "você mudou, hein!". E se repete cada vez que se deixa as ideias descansarem; quando não há diálogo com diferentes áreas do conhecimento.
Talvez, a tendência a que me refiro se mostra com força maior nas religiões, pois aí se congela versões "em nome de Deus".
Ora, o Espírito de Deus é o mais subversivo e artista de todos. A Revelação há que se contar em diversas versões - variações sobre o mesmo tema. Quando gente se afeiçoa acaloradamente à um dogma, não reconhece o Deus que ousou fazer diferentes interpretações da vida, fé, do homem e de si mesmo. As críticas vêm em novas versões da inquisição!
A força que move esse estreitamento não é só a afeição, mas também o desespero por uma ordem, sentido. E pior: a sede de controle e de poder.
É bom lembrar que nas Escrituras, Deus volta atrás, se arrepende e em muitos episódios se desdiz.
A Encarnação talvez seja a interpretação divina mas escandalosa e ousada. Aí Deus variou no tema, cores, texturas, verbetes, andamento, ideias, tom, harmonia.
Em Jesus, Deus diz "vocês ouviram o que foi dito, eu porém digo. .." É Deus desacatando as interpretações dos homens sobre Ele.
E não me queimem se eu falar que hoje o Espírito talvez dissesse sobre muitas coisas do Novo Testamento: "vocês ouviram o que eu disse [ou: o que escreveram sobre mim], porém, hoje eu digo a vocês..."
Interpretação é sempre interpretação. Uma simples leitura já é uma interpretação. Uma ideia sobre Deus não é Deus.
Sobre Deus não há versões originais e definitivas.

quinta-feira, março 12, 2015

A história de Deus se conta a partir de uma narrativa humana



Para uma cabeça pós-moderna um Deus metafísico é obsoleto, a inspiração verbal e plenária das Escrituras não se sustenta, verdades absolutas são improváveis e argumentos autoritários são uma anedota.

O livro do profeta Oséias é uma peça literária de uma beleza invulgar. Uma narrativa apaixonante, devota, tensa, amorosa, de tonalidades mais de 50.

O escritor desse livro, como todos os profetas, coloca na boca de Deus o script de sua história, como se Deus montasse o cenário para Oséias representar. Mas, a meu ver, a história de Oséias veio antes da “revelação”; a desilusão amorosa do profeta, o seu amor, casamento, traição, graça, doçura, ira vieram antes da inspiração. Ou, se preferir,  a sua história foi quem o inspirou.

A narrativa de Oséias se faz a partir de um caos, do imponderável. O cenário se faz de maneira imprevisível e decepcionante. (Oséias que o diga!). O cenário está posto não porque alguém o manipulou. O cenário se fez livremente. O que Oséias faz? Empresta sua história para montar uma peça profética.

A inspiração para contar a história de um Deus que ama desmedidamente, veio a partir da história de Oséias. Não é Deus que empurra goela abaixo os seus argumentos, que manipula a história humana para encaixar seu enredo.

Não, Deus não mandou Oséias se casar com uma prostituta apenas para ele sentir na pele o que sentia Deus. Alguns perguntarão escandalizados: “a Bíblia está mentindo?”. Não essencialmente. 

Quando o profeta (nem temos certeza foi Oséias quem escreveu o livro!) escreve como sendo Deus a causa de sua história, ele dá verossimilhança ao texto, confere credibilidade à narrativa.
Coisa que talvez nem precisasse, uma vez que o amor de Oséias  com paciência, tolerância, perdão e esperança, já era de caráter divino. 

Quem ama como Oséias, ama como Deus!

A história do profeta não é uma determinação divina. Pelo contrário, a história de Oséias é que reivindica Deus; prepara o caminho para Deus; é a partitura por onde Deus faz sua música de amor!

Ao invés de Oséias contar uma parábola, como fazem outros protagonistas na Bíblia, Oséias usa sua história como pano de fundo para a Revelação.

Oséias, de tão engajado, comprometido com seu povo e com boas intuições sobre Deus faz de sua história, apesar de inglória, um enredo de esperança. É para conciliação que Oséias prega. É para a paz que ele profetiza. É para salvar a existência, assistir aos esquecidos que Oséias cantar o amor.

O livro da vida veio antes das Escrituras, como nos ensinou Carlos Mesters. As Escrituras são narrativas feitas a partir da saga humana: suas buscas, sua fé, desencontros, alegrias, dúvidas, confusões, guerras, vitórias, derrotas, confusões, decepções e deuses.

Homens e mulheres emprestaram (e emprestam) sua história para contar o amor de Deus.


Alguns perguntaram "E Deus, onde está nessa história?" Não viram? Deus é o chão onde isso tudo isso é possível. Onde vivemos nossa humanidade. Ele emerge em nossas ações. Ele se confunde com a história humana. Deus está no meio, através de nós, em nós. Deus se revela na transparência de todas as coisas. 

Cadê Deus? Deus está encarnado!

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

A Palavra

Não subestime uma palavra.
Uma palavra não é apenas uma palavra. Uma palavra são vários combinados.
Além de sentidos, uma palavra é som/música que diverte tantas crianças – onomatopéia, embeleza o texto e a poesia e corteja os amantes.
Uma palavra é uma imagem - “janela”; um afeto - “casa”; um cheiro - “jasmim”.
Uma palavra é uma cultura. Uma história.
Uma palavra são emoções.
A palavra é uma arma – disputa de poder, egos e vaidades. Uma violência emocional. A palavra é uma sentença, um preconceito.
Um pedido de socorro, uma despedida. Um desnudar-se.
Uma palavra é um beijo. Um amor. Uma palavra é uma esperança.
Uma palavra é um universo. Uma vida.
Um silêncio...
Uma palavra tem cor, calor e textura.
A palavra é Deus encarnado.
Toda palavra que humaniza é divina. A palavra, onde estiver - artes, ciências, religião - que me reivindica responsabilidade, que inspira a vida, que se empresta para cantar as contradições e dramas humanos, que planta esperança é de caráter divino.

“A Palavra se fez carne e nos habitou”.

sábado, janeiro 31, 2015

Monoteístas de um Deus dual.



É muito estranha para mim a lógica de muitos religiosos de um Deus dicotômico. Um Deus que se divide em dois deuses completamente antagônicos. E que também divide o mundo e as pessoas em dois. (Além de tudo essa lógica é simplista!).
A partir daí nasce toda uma esquizofrenia religiosa e quiçá divina.
Esse entendimento gera, por exemplo, a teologia do “time de Deus”. Entre vários times, Ele tem um e quem quiser participar desse time deve aceitar um credo, aderir a uma religião, levantar a mão numa igreja evangélica. Daí, alguns chegarem ao absurdo de dizer que nem todos são filhos de Deus a priori, mas sim criaturas; tornam-se filhos quando “aceitam” a Jesus. (!)
A ideia de um Deus dicotomizado também gera um exercício forçoso de dividir o ser humano em dois: bem e mal. Esse Deus exige de mim a perfeição para me abençoar, senão Ele me castiga. Mas o ser humano é uma rede complexa intrincada, um nó de valores, uma ambivalência amalgamada impossível de peneirar. É joio e trigo numa mutualidade, anjo e demônio numa simbiose, sombras e luzes misturadas.
Os religiosos, já dualizados, quando falam na graça e no amor de Deus, conseguem dizer frases do tipo “Deus é amor, mas também justiça!”, como se essa “justiça” fosse um ato de vingança, de destruição da parte do divino.
As “guerras santas”, a intolerância religiosa, a incompetência no diálogo com manifestações religiosas diferentes, ganham força nesse Deus dia – bólico. Um verso preferido dos adeptos de um Deus dual é “se Deus é por nós quem será contra nós?”
Esse Deus fragmentado consegue fazer o bem e o mal. A interpretação dos crentes nesse Deus sobre as tragédias, mortes, sofrimento, dor humana é que esse Deus (a meu ver, dual) orquestra também esses eventos – ou permite que o Diabo o faça – porque tem um propósito! Por exemplo, Ele consegue permitir (ou orquestrar) um abuso sexual, o choro de uma criança? Dia – bólico!
Por isso faz sentido as orações dos crentes dualizados “pedindo a intervenção de Deus, clamando que sua glória desça”, porque em suas mentes, Deus habita em um lugar e espera ser convocado para se fazer presente.
Deus é uno.
Não habita um lugar, pois que todos os lugares habitam Nele.
Não tem preferidos, pois todos são seus filhos.
Não tem uma parte de nós que Ele arranca. Sendo nós uma mistura de valores, Ele enxerga em nós beleza e nos estima. O Deus Uno nos ama inteiramente – não espera perfeição, mas integridade.
O Deus uno é o Anti-mal, pois quer bem a todos e convoca a todos a que prestem assistências aos oprimidos.
O Deus de Jesus não tem um “time”, não tem eleitos e preferidos.
Deus não tem amor; Ele é amor. E esse amor tudo suporta, tudo espera, tudo crê.
Tudo é de Deus. Tudo está em Deus ("a terra está cheia de Sua glória!"). Nós nos movemos, existimos e vivemos em Deus. E morremos e temos medo e nos atrapalhamos, ficamos deprimidos, alegres, com crises de fé, temos prazeres e alegrias em Deus que é o nosso universo.
O Deus de Jesus não tem uma nação. Deus é universal.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Minha homenagem e gratidão aos poetas!



O poeta é um cristo que morre sem fazer ideia da repercussão das suas palavras. 

A despeito disso, sai a semear palavras generosamente. Profusão de sementes. Porque a esperança do poeta não é a glória, mas a sua vocação. O fazer poético é já a glória. No tempo do cio poético ele faz amores. E esses amores transcendem sua expectativa, o seu objeto, o mercado e o tempo. A poesia é maior que o poeta.

Como canta Milton Nascimento, os poetas “fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos/ que jamais são alcançados, cansados, cansados/ nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem/ escrevem o que sabem que não sabem/ e o que dizem que não devem.”

O poeta não percebe, mas está polinizando a vida com palavras e imagens, ventilando ideias com sons, fazendo terapia com símbolos, antecipando o futuro com metáforas, promovendo encontro com o sagrado.

O poeta é um utópico, profeta e sacerdote. Morre mudo e muitas vezes sem fé, mas não sem ter amado e prestado atenção à vida.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

A m a r a m a n d o

A m a r a m a n d o


A Mara amando
Inventa um mundo bom
Onde cabe toda gente
E não entra a perfeição
Ama mais e espera menos
Não sem angústia e pesar

Há mar amando
Há janelas, horizontes e sóis
Mais beijos e abraços
Ouro, trigo, vinho e mel
Nova folha, cor e pincel
Licença do perdão

Amar amando
No gerúndio teimoso
Contra o ego e preguiça
Ainda que seja feio e pouco
É o amor o remédio
Para a loucura e o tédio

Amar a mando
Não do Livro e das leis
Dos anjos e do Divino
O amor é generoso
A dor do outro é o apelo
Ao amor que é a sua cura

Márcio Cardoso

terça-feira, janeiro 27, 2015

O amor é maior do que a fé


Há uma história no livro de Gênesis que é um retrato da saga humana. A história de Hagar e seu filho Ismael, cujo pai é Abraão. Como Sara, mulher de Abraão não podia dar a luz, teve a ideia de usar Hagar como “barriga de aluguel” para resolver o problema da descendência de seu marido. Isso gerou muita confusão na casa do patriarca.

Hagar fugiu para o deserto pela primeira vez, mas voltou para a casa de Abraão. Depois de 14 anos, Sara, milagrosamente, deu à luz a Isaque. Confusão sobre confusão, pois agora não somente as mulheres disputavam, mas também os filhos, o que fez Sara coagir Abraão a expulsar a escrava com seu filho.

Hagar e Ismael vão para o deserto pela segunda vez. Mas agora acaba o pão e a água e a fé e força para viver. Hagar se afasta de seu filho para não o ver morrer e começa a gritar e a chorar.

No meio de sua crise, gritos e soluços, Hagar ouve a sugestão divina “levante-se, pegue seu filho e abrace-o!”. É o que faz Hagar: aperta o menino contra seu peito e então a vida renasce: Hagar percebeu um poço que sempre esteve ali.

O que salvou Hagar e Ismael não foi a fé, mas o amor.

O abraço – um gesto desprovido de sofisticação, certezas, teologias os devolveu à vida. Imagino que enquanto Hagar abraçava o seu filho pensava “meu filho precisa de mim, não vou desistir, não vou entregar os pontos, meu filho precisa de mim! Não por mim, mas por ele!"

O amor de Hagar pelo filho a salvou. A situação de Ismael reivindica o amor de Hagar. E o amor em ato salva os dois.

Responder por alguém nos cura, nos salva, nos devolve à vida. Amar nos livra de uma vida sem sentido. A resposta para questão do ser é amar.

Quando na bifurcação da vida, onde as certezas nos abandonam, onde nos vemos impotentes, onde nos falta a fé, o que pode nos salvar são os nossos amores.

Quando estiver encrencado não fique dando voltas em torno de si, mas se descentralize e ame a alguém.

Quantos projetos não colapsaram por causa da urgência de amar!

Um sacerdote não desistiu de sua vocação não porque ainda restasse fé, mas por se lembrar do bem que seu ofício fazia a algumas pessoas. Por essas pessoas o sacerdote não desistiu e no meio do caminho se re-encantou pela vocação.

Alguém desistiu de dar cabo da vida porque se lembrou de um carente: “fulano precisa de mim; por ele eu não posso tirar a minha vida!”

Um divórcio foi adiado porque os filhos ainda eram novos. O homem/a mulher adiou sair de casa e depois de algum tempo se apaixonou novamente pelo parceiro (a).

Relacionamentos de pais e filhos foram renovados porque os filhos, por amar, entenderam que os pais precisavam do seu perdão, porque ninguém é perfeito.

O amor é maior do que a fé. Agora entendo um pouco melhor o apóstolo.

Nos piores dias da sua vida, faça como Hagar, “se levante e abrace a alguém!”. A vida vai colar em você. Você vai colar na vida. Você terá boas razões para não desistir.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Deus não é perfeccionista.



No livro de Gênesis, na poesia da criação, há um refrão que o Criador repete de boca cheia ao contemplar a obra que havia feito: “Bom. Bom. Muito bom!”. A frase traduz muito mais um deleite, uma gratidão – festa da memória – do que uma constatação de ter alcançado a perfeição, o definitivo, o acabado.
Reflita. O Criador conseguiria ou não aperfeiçoar os mares, o sol, as estrelas? Melhorar um pêssego? Se sim, as estrelas, o sol, os mares, o pêssego não são perfeitos, apesar de serem maravilhosos! Mas para Deus já estava bom. Não estava perfeito, mas Deus deu por encerrada a sua obra. E com gratidão.
Lembre-se também da frustração de Deus com as decisões livres dos homens e mesmo assim sua estima, gratidão e esperança pela humanidade não se cansam.
Quem sofre com o perfeccionismo não se deleita porque não consegue terminar o que está fazendo. Nunca se dá por satisfeito porque nunca alcança a perfeição. “Bom” para um perfeccionista é muito ruim. Para ele tem que ser perfeito. Daí seus dias são marcados pela ansiedade, frustração, desgaste emocional e azedume.
O Criador soube terminar, parar. Certamente tinha mais criatividade para fazer outras coisas, mas escolheu um momento para quietude e deleite! A paz reside muitas vezes em sabermos “terminar” as coisas, respeitarmos as etapas, respeitarmos a dinâmica do nosso corpo, a saúde e qualidade de vida.
É compreensível que num mundo de concorrência onde nós somos medidos por resultados, fiquemos sempre com a sensação de que estamos devendo algo, que estamos ficando para trás, de que o que fizemos não foi bom. Mas isso é um ácido que corrói a nossa existência. Precisamos de outra medida de tempo que não seja o relógio.
O que marcava o tempo/período na criação de Deus não era o relógio, o calendário, as estações, mas a gratidão na boca do Criador “bom, muito bom!”. Era esse o refrão que pontuava os “dias” de Deus.
Nossos dias e dinheiro são medidos pelo tempo, nossa capacidade também. Chronos é um deus terrível que devora seus adoradores impiedosamente. A única chance que nós temos de não sermos devorados por esse deus (tempo) é o exercício da gratidão, do olhar gracioso para a nossa caminha que, apesar de não ter sido perfeita ou obtido o êxito que esperávamos, foi boa.
Nesse período onde mais um ciclo se fecha, escolha pontuar com gratidão e doçura e não com o relógio, com os números, com os sucessos.
Olhe com ternura e tolerância para a sua história. Talvez você tenha conhecido a frustração de não ver seus sonhos realizados, a decepção com as metas do ano, o inconformismo de ter se dado tanto e ter alcançado tão pouco, não ter conseguido atender às expectativas suas e de outros, mas se você foi decente e honesto no seu ofício já valeu à pena. Se você foi verdadeiro, íntegro e trabalhou: isso já é bom!
Lembre-se que muitas coisas não dependem de você. Há muitas outras forças que concorrem com os nossos desejos como o acaso, a autonomia da natureza e a liberdade humana.
Pare um pouco, veja quanta coisa boa já lhe aconteceu. Quanta vida você já viveu, como sua vida tem sido interessante. Cultive um coração grato pela vida, por aquilo que conseguiu realizar, por ter se mantido fiel/leal às suas ideias, pelo amigo Deus, pela sua família e amigos.
E para que esse exercício seja também solidário e inclusivo, use da mesma tolerância e doçura com o próximo. Ele é muito parecido com você!
Que você possa chegar ao final do ano e dizer “foi bom!”.