Terça-feira, Março 13, 2012

“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”

Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena!

Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que é Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório.

Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da vida. A presença de Deus é a causa da nossa existência; só vivemos porque vivemos Nele.

Orar é compartilhar com Deus, é um desabafo e não uma técnica. Não devo confiar mais em minha oração do que em Deus. Não é porque orei “corretamente” que Deus vai fazer alguma coisa. Deus não se põe em movimento por causa da oração. Deus é pura gratuidade!

Como eu vou orar sabendo que Deus não se “move” por causa da oração? Como serão minhas palavras em oração, sabendo que Deus não está “fora” para que tenha que intervir, mas que está envolvido até ao pescoço com a minha história? Como serão os termos de minha oração sabendo que eu vivo, que eu me movo e existo em Deus?

Oração de invocação quer chamar mais a minha atenção do que a atenção de Deus. Quando eu digo “vem, e visita o seu povo”, na verdade quero convocar os meus sentidos à presença de Deus: “vem, minha alma, abre os seus olhos para Deus, ouça o que Ele diz, perceba a sua presença!”. Porque na verdade não sou eu que estou esperando algo de Deus; mas é Deus que espera algo de mim. A pergunta não é minha - “onde está Deus?”, mas a pergunta é de Deus - “onde está você? Onde está o seu irmão?” (Gênesis 3,9; 4.9).

Não sou eu que invoco a Deus; é Deus que me invoca para eu dar conta de minha existência e cuidar do meu semelhante! Que vocação nobre e cheia de significado!


Márcio Cardoso.


Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

MÁSCARA, QUEM NÃO TEM?


O uso de máscaras não é uma prática exclusiva no período do carnaval. Todos nós usamos máscaras o ano inteiro. Quero dizer: dependendo dos momentos e ambientes, temos maneiras diferentes de nos comportar. Usar máscaras é uma prática comum daquele que aprendeu a polidez. Meu comportamento numa cerimônia de casamento é um, meu comportamento em casa é outro completamente diferente; minha postura num velório não é a mesma da minha postura num aniversário. Não, isso não é esquizofrenia, mas sim polidez.

O problema é quando eu uso uma máscara não porque o ambiente me sugere um comportamento, mas porque eu quero de alguma maneira tirar vantagens. Uma coisa, por exemplo, é usar a “máscara” para um ambiente do trabalho; outra coisa é usar, no ambiente do trabalho, uma máscara para disputas de poderes e jogos políticos. Uma coisa é usar a máscara “ideal” num ambiente de negócios, outra coisa bem diferente é usar uma máscara para trapacear numa negociação. Uma coisa é usar uma “fantasia” para determinado baile, outra coisa é vender uma imagem fantasiosa para se dar bem.

Mas usar máscaras é também uma questão de sobrevivência e sanidade. Eu uso máscaras para não ferir aquilo que dói tanto em mim. Eu uso máscaras para esconder aquilo que acho feio. Eu uso máscaras porque não sei se o outro terá carinho por aquilo que eu sou. Eu uso máscaras porque minha intimidade é o que eu tenho de mais precioso. Isso é compreensível e demasiado humano!

Só os amigos e amantes conhecem um pouco mais do segredo por trás das máscaras. E como é bom encontrar alguém e segredar o nosso rosto, a nossa fragilidade, a nossa feiúra, as nossas sombras! Como é bom, por um instante apenas, descolar-nos dos ornamentos de sobrevivência, e ficarmos à mercê do outro. Quem encontra um amigo pode contar com ele não apenas nos “carnavais” da vida, mas também em dias comuns e tristes, sem bailes, máscaras, música e serpentina.

Obviamente, em Deus podemos nos despir de todo aparato polido, político, religioso, alegórico e de sobrevivência, certos de que Ele nos entende, nos recebe e nos ama gratuitamente. Mas, como os braços e colo e ouvidos de Deus é o ser humano, será em mim e em você que as pessoas poderão encontrar esse amigo confidente.

Faça um amigo, cative alguém, se aproxime do outro. É lá que Deus quer encontrar você – no “carnaval” e nos dias ordinários! Sei que não será fácil encontrar esse amigo. Você vai se decepcionar muitas vezes, em outras vai se arrepender, mas vale à pena o risco! Quem sabe, na passarela da sobrevivência humana, você e um amigo, darão doces risadas das máscaras que usam!


Márcio Cardoso



Terça-feira, Dezembro 06, 2011

TAL E TANTO.

O quanto cabe numa história a dois?

Os fatos, os pensamentos

O feito, o por fazer

Linguagens, interpretações

Memórias e saudades

A eternidade e o agora

Quantos “eus” numa vida a dois!

Liberdade, autonomia

Egos, poder, narciso

Silêncio e espaço

Ambiguidades e um lar

Apreciação e sapos

Quanto amor na vida de dois?

Êxtase, epifania

Animal e humano

Cotidiano e eventos

Conquista e gratuidade

Duas crianças e uma fonte.

Quanta vida! Quanta história!

Tal e tanto!

Quantos “eus”! Quanto amor

Em nove anos!


(Dedicada à minha amada Déia em nosso aniversário de casamento!)



Quarta-feira, Novembro 30, 2011

TRANSGREDIR PARA SER HUMANO

Conversando com minha esposa a respeito da educação de nossos filhos, disse que gostaria que meus filhos, vez por outra, quebrassem minhas regras; que não queria filhos subservientes, assustados, com medo das fronteiras, obedientizinhos a tudo que lhes ordenasse. Até porque muitas de minhas ordens não são legítimas! Uma criança que segue minhas leis à risca não vai além de mim, já que em meus conselhos, obviamente, eu projeto todos os meus receios, preconceitos, previsões... enfim, a minha “experiência de vida”, e assim posso lhe furtar o direito de ter a sua própria experiência.

A minha leitura da poesia de Gênesis é que ali Deus abre os olhos do ser humano para a responsabilidade que ele passaria a ter se ultrapassasse o limite. A meu ver não foi uma mera proibição! Foi apenas uma advertência.

“Vocês terão grandes responsabilidades. Vão ter consciência de si. Vão comer do trabalho, vão saber a dor de criar filhos e perdê-los. Morrerão e saberão disso. Terão consciências dos sentimentos bons e ruins.

A curiosidade do ser humano foi tanta que ele imaginou como seria a vida depois da linha. Pagaram para ver! Comeram a Liberdade!

Muitos "batem" em Eva dizendo que ela foi a grande culpada pela queda da humanidade, afinal ela comeu do fruto primeiro. Mas eu, que fui salvo da perfeição assim como Eva, acredito que ela foi muito corajosa, transgressora, curiosa para ir além da fronteira do desconhecido, e assim pariu a Consciência Humana... (E, fiel como toda mulher, voltou para buscar Adão! Imagine se ela o deixa lá...?!) Eva nos colocou não num estado danado, mas para além dos limites de uma existência animal. Eva não deu à luz à Queda, Eva deu à luz a Humanidade! Eva deu à luz ao mundo complexo, interessante, inevitável, dinâmico que é a vida humana. Viva Eva! Salve Eva! Ave Eva!

Imagino que Deus ao perceber a curiosidade da mulher/homem e o seu ato de ir para além das fronteiras disse “bingo!”. Deus vibra com o inconformismo do homem porque foi para isto que Deus criou o homem: para liberdade, portanto com a capacidade de se inconformar, de se rebater, de subverter, de transgredir.

Não existe nenhum código, programa, software (nem bom, nem mal) para o homem cumprir. Isto é o que o homem tem de mais caro: a liberdade. Para usar a expressão de Rousseau – a “perfectibilidade”: a capacidade de se emancipar de todo código, de todo programa de computador natural; um potencial que o homem tem para se aperfeiçoar, reinventar, mudar, transformar.

Não estou convencido que Deus criou o homem com potencialidade para o Mal e para o Bem, senão poderíamos responsabilizar Deus de nossos atos, já que Ele previamente definiu dois programas. Acredito que Deus criou o homem para além do Bem e do Mal. A visão dicotômica Mal X Bem que se tem apequena demais a vida e é muito simplória. A vida é mais do que o Mal e o Bem. Aliás, o que é o Mal e o que é o Bem? O que pode ser bom para alguém pode ser mau para outra pessoa e vice-versa. Nesta dicotomia simplória Mal X Bem existem muitas outros matizes de valores, belezas, verdades, éticas que são contingentes, culturais e relativas.

O Existencialismo diz que a existência precede à essência; outros filósofos, como André Comte-Sponville, dizem que a essência se confunde com o existir. De um jeito ou de outro não há uma “natureza-software” a ser seguida. Acho que é por aí: eu sou enquanto vou vivendo; eu sou como eu vou vivendo. Ao contrário da ordem tradicional fundamentalista que diz que o homem nasce com um código mau e basta chegar à idade da razão para que a víbora que nele há se manifeste.

Deus criou o ser humano para aprender a liberdade.

Entendo que é na dialética filhos - pais que as crianças aprendem um código de ética combinado entre eles. De certa maneira, o meu “não” ao meu filho desperta nele curiosidade, imaginação, desejo de saber que tipo de experiência existe além dessa fronteira “não”. O fato de ele transgredir não é necessariamente mau, e às vezes o levará a descobrir novas possibilidades, reinvenções e a se enxergar superando um obstáculo.

Há transgressões para morte e há transgressões para a vida. Há quebras de códigos de ética que são extremamente nocivos, mas há subversões que geram vida, evolução, aperfeiçoamento. Sem subversão não há evolução, sem quebra de limites e paradigmas a história humana não teria chegado aonde chegou. Se os gênios, pensadores, artistas, utópicos, poetas não subvertessem os paradigmas, as normas, as leis o mundo seria a estagnação!

Jesus Cristo quebrou padrões, subverteu normas e etiquetas a favor da vida, reinterpretou a Lei “vocês ouviram assim, porém eu vos digo assim...” Jesus não se encaixava num esquema sócio-econômico, político ou religioso, Cristo não cumpria o programa do que se esperava de um Messias. O carpinteiro frustrou a máxima que “não poderia vir coisa boa de Nazaré”. Cristo transgrediu em favor da vida! Cristo subverteu para a humanidade seguir caminho!

Sexta-feira, Novembro 25, 2011

Paradoxo - Márcio Cardoso. Um clipe de Anderson Rodrigues da BemTv

video

No vídeo, Aristides Cavalcante, Jr Finnis, Cainã Cavalcante, Ferreira Jr., Anfrísio Rocha, Robson Batista, Jefferson Portela, Samara Lopes, Juciane Mendonça e Marcelo Baima.

"Há teólogos que se parecem com galo", recorte de Rubem Alves

Há teólogos que se parecem com galo.

Acham que, se não cantarem direito, o sol não nasce: como se Deus fosse afetado por suas palavras. E até estabelecem inquisições para perseguir galos de canto diferente e condenam outros a fechar o bico, sob pena de excomunhões. Claro que fazem isto por se levarem muito a sério e por pensarem que Deus muda de ideia ou muda de ser ao sabor das coisas que nós pensamos e dizemos. O que é, para mim, a manifestação máxima de loucura, delírio maníaco levado ao extremo, este de atribuir onipotência às palavras que dizemos.

Teólogos são, frequetemente, galos que discutem qual a partitura certa: que canto cantar para que o sol levante? Neste sentido, conservadores fundamentalistas não se distinguem em nada dos teólogos científicos que se valem de métodos críticos de investigação. Todos estão de acordo em que existe uma partitura original, revelada, autoritativa, e que a tarefa da teologia é tocar sem desafinar. As brigas teológicas são discussões sobre se a tonalidade é maior ou menor, ou se o sinal é bemol ou sustenido. Uns querem que seja tocada com orquestra de câmera e outros afirmam que o certo é tocar com banda. Qualquer que seja a posição, todos afirmam que existe um único jeito de tocar a música. Desafinações, variações ou modificações trazem consigo o perigo de alguma grave consequência.

Eu penso, ao contrário, que não é nada disto.

O sol nasce sempre, do mesmo jeito, com galo ou sem galo.

Assim, o galo pode dormir à noite, sem a angústia de ter de acordar na hora certa. Se dormir demais, o sol vai se levantar do mesmo jeito. O que, sem dúvida, diminui seu senso de importância, mas tem a compensação do sono tranqüilo, o que não é de se desprezar.

Mais do que isto: o galo pode inventar outros cantos, sabendo que o sol não vais se zangar e vai nascer como sempre, no mesmo lugar.

Traduzido em jargão teológico, isto significa “graça”: a bondade de Deus continua a mesma, sempre, independente de nossas afinações ou desafinações. Ele nem nasce melhor quando estamos afinados e nem nasce pior quando estamos desafinados... Temos, portanto, a liberdade de fazer o que quiser... Eu não suportaria pensar que o meu pensamento é tão poderoso que, caso eu pense errado, Deus vai ficar torto.

A partitura tem o nome de teologia, mas quem dança somos nós...



Terça-feira, Novembro 22, 2011

Dúvida (Bartolomeu Campos de Queirós)

Dúvida (BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS)

"É só a dúvida que nos une, que nos aproxima. É só disso que precisamos. Precisamos de amparo com a nossa dúvida. E a literatura nos ampara. Tenho muito medo da verdade. Não acredito que haja nada verdadeiro. Tive um professor de filosofia, o padre Henrique Vaz, para quem eu perguntei “o que era a fé”. Ele me respondeu que a fé é a dúvida. Tem dias que você tem muita, tem dias que tem pouca, tem dias que não tem nenhuma. Isso se chama fé, porque nos é possível somente a dúvida. Hoje, estamos com muita gente encontrando a verdade. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de escutar o outro. Ela só fala, não escuta mais. Quem encontra a verdade só fala."

Quarta-feira, Outubro 26, 2011

Betesda do Ceará não abre mão de caminhar com o Ricardo Gondim.


Prezados Pr. Ricardo e Pra. Gerusa.

Quando o sonho chamado Igreja Betesda nasceu para a vida no ano de 1981, talvez seus primeiros idealizadores não se dessem conta de quão sacrificante, estafante, e mesmo assim, tão gratificante seria o caminho pelo qual homens e mulheres, que optassem pelo mesmo, teriam que percorrer.

Em meio a forte desconfiança e acusações absurdas, vindas à maioria das vezes daqueles mesmos que pregavam o amor em seus púlpitos, logramos êxito em continuarmos vivos, levando a palavra de Deus e Seu evangelho da forma como acreditamos ser legítima. Sempre lutando para nos manter coerentes à realidade e contra as injustiças praticadas por interesses eclesiásticos egoístas.

Como é duro lutar contra quem deveria ter mais escrúpulos do que discursos inquisitórios. Compartilhamos essas dores, Ricardo e Gerusa, elas fazem parte de todos aqueles que um dia tiveram seus olhos abertos para o sonho do qual vocês foram dos primeiros a acreditar. Lutamos as mesmas lutas, somos afligidos pelo mesmo mal, embora em amplitudes e efeitos diferentes. Para exemplificar tal fato basta ver as inúmeras ofensas que cada um de nós, homens e mulheres da Betesda, sofremos por não nos intimidarmos a ordem vigente. Mesmo assim não estamos dispostos a abandonar este sonho. Pelo contrário, ainda mais fortes prosseguiremos.

Contudo, para isso temos que deixar claro que em meio a tão corriqueiras demonstrações de afronta e perfídias, congregamo-nos para declarar publicamente apoio incondicional a sua pessoa Ricardo, e contra o linchamento moral o qual tem sofrido. Confiamos na sua índole, provada ao longo dos anos de incansável serviço para com a Igreja Betesda. Confirmamos nosso desejo de estreitar mais ainda nossos laços. Laços estes visíveis durante nosso último encontro, onde palestras e conversas amigas nos provaram o quanto temos em comum, e o quanto ainda podemos caminhar como verdadeiros irmãos. Por favor, não nos tenha entre aqueles que se enchem de deslealdade, buscando em meio a conversas fraternais palavras para acusações desvirtuadas e cheias de dolo. Antes, logre encontrar em sua memória os sorrisos sinceros e as palavras de admiração, carinho e respeito das quais você é merecedor.

Como membros deste sonho não abrimos mão de sua mentoria e do seu pastoreio. Pensar em Betesda é pensar em Ricardo Gondim, assim como em muitas outras pessoas que fazem parte de nossa história e não podem ser alijadas destas páginas escritas com o suor, a luta, os sonhos e a abnegação de muitos. As polêmicas são parte da história de pessoas que se propõe a trilhar o caminho da justiça, assim também como o caminho estreito do amor e da misericórdia não comporta uma multidão. Porém, ao invés da comodidade que muitos querem, escolhemos o caminho que Deus tem proposto aqueles que têm coragem a responder ao Seu chamado para serem profetas nos nossos dias atuais, como aqueles que Deus levantou outrora. É uma honra servir á Deus com tais pessoas.

Desta forma, queremos contar sempre com sua presença e afeto, sabendo que o povo da Igreja Betesda do Ceará lhe respeita e é grato pelos muitos anos de serviço a Deus e as nossas próprias vidas.

Assinam essa carta

Álvaro Jansen Viana da Silva (Betesda Aldeota)
Anderson Garcêz de Lima (Betesda José Walter)
Antônio Marcelo Lima Oliveira Filho (Betesda Jardim Castelão)
Célia Aderaldo Mendonça (Betesda Barra do Ceará)
Francisco Chagas da Silva (Betesda Conjunto Ceará)
Francisco Eudes Venâncio Cardoso (Betesda Russas)
Francisco de Assis Pereira Fernandes (Betesda Cascavel)
Francisco Flávio de Castro Leite (Betesda Sul)
Francisco Finésio Ferreira de Azevedo (Betesda Cidade 2000)
Francisco José Morais de Souza (Betesda Messejana)
George Sousa Cavalcante (Betesda Antônio Bezerra)
Gilmar Pacífico de Sousa (Betesda Parangaba)
Izaías Alves do Nascimento (Betesda Serviluz)
James Cley Lima da Silva (Betesda Juazeiro do Norte)
José de Souza (Betesda Horizonte)
José Maria Mendes Uchôa (Betesda Serrinha)
Leonardo Farias Cruz (Betesda Vila das Flores)
Marcelo Horácio Pedroso (Betesda Granja Portugal)
Márcio Oliveira Cardoso (Betesda Montese)
Mardes Silva (Presidente Betesda Ceará)
Maria Leny Brito da Silva (Betesda Jaguaribe)
Maria Mônica Santana (Betesda Nova Metrópole)
Nino Rodrigues Vieira (Betesda Autran Nunes)
Otacílio de Pontes Lima (Betesda Joaquim Távora)
Paulo de Moraes Filho (Betesda Itapery)
Paulo César da Silva (Betesda Sítio São João)
Paulo Maurício Gonçalves Barbosa (Betesda Messejana)
Roberto Rinaldo Campos Moura (Betesda Crateús)
Rodolfo de Almeida Eloy (Betesda João Pessoa)
Ronaldo Pereira da Silva (Betesda Papicu)
Salete M. Lima (Betesda Joaquim Távora)

A Parábola da Porta, de Carlos Mesters.

A PARÁBOLA DA PORTA

I. No povoado havia uma casa. Era chamada Casa do Povo. Muito antiga, bem construída. Tinha uma porta bonita e larga, que dava para a rua por onde o povo passava.

Porta estranha. Seu limiar parecia eliminar a separação que havia entre a casa e a rua. Quem por ela entrava parecia continuar na rua. Quem passava na rua parecia ser acolhido e envolvido pela casa. Nunca ninguém se deu conta desse fato, pois era uma coisa tão natural, como é natural haver luz e calor, quando o sol brilha no céu.

A casa fazia parte da vida do povo, graças àquela porta que unia a casa à rua e a rua à casa. Era a praça da alegria, onde a vida se desenrolava, onde tudo se discutia, onde o povo se encontrava. A porta ficava aberta, dia e noite. Seu limiar era gasto pelo uso no tempo. Muita gente, todo mundo por aí passava.

II. Certo dia, chegaram dois estudiosos. Vinham de fora. Não eram de lá. Não conheciam a casa. Só tinham ouvido falar da sua beleza e antiguidade. Vieram para ver. Eram estudiosos que sabiam julgar as coisas antigas. Viram a casa e logo perceberam o seu grande valor. Pediram licença para ficar. Seu desejo era estudar.

Procuraram e encontraram uma porta do lado. Por aí entravam e saíam, para fazer seus estudos. Não queriam ser importunados pelo barulho e borbulho do povo na porta da frente. Queriam ter a tranqüilidade necessária para fazer as suas reflexões.

Ficavam lá dentro, longe da porta do povo, num canto escuro, absortos na investigação do passado da casa.

O povo, entrando na sua casa, via os dois com grandes livros e máquinas complicadas. Chegando perto deles, a gente humilde ficava calada. Silenciava, para não perturbá-los. Tinha por eles uma grande admiração: “eles estudam a beleza e a história da nossa casa! São estudiosos!”

III. Os estudos avançavam. Os dois descobriram coisas lindas que o povo não conhecia, embora as visse na sua casa, todos os dias. Obtiveram licença para raspar algumas paredes e descobriram pinturas antigas que representavam a história da vida do povo, história que o povo não conhecia. Fizeram escavações junto às colunas e conseguiram retraçar a história da construção da casa, história de que ninguém se lembrava.

O povo não conhecia o passado da sua vida e da sua casa, porque o passado estava dentro dele, atrás dos seus olhos que não se enxergam a si mesmos, mas que enxergam todo o resto, orientando a vida para a frente.

À noite, nos serões, misturados com o povo, os dois estudiosos contavam as suas descobertas. Crescia no povo a admiração pela sua casa e pelos dois.

IV. Os dias iam passando. O povo, quando entrava na casa, já ficava calado. Uma casa tão rica e nobre, tão discutida e falada no mundo inteiro, merecia respeito. Era diferente da vida barata da rua ao lado. Tinham de respeitá-la um pouco mais. Aquilo não era lugar de conversa. Assim todos diziam. Assim todos faziam.

E algumas pessoas daquele povoado já nem mais entravam pela porta barulhenta da frente. Preferiam o silêncio da porta lateral dos estudiosos. Evitavam o barulho do povo. Entravam na casa, já não para encontrar-se e falar com os outros, mas para poder conhecer melhor a beleza da sua casa, a Casa do Povo. Recebiam explicações dos estudiosos sobre a casa que tanto conheciam e pareciam não conhecer mais.

V. Assim, pouco a pouco, a Casa do Povo deixou de ser do povo. O povo inteiro preferiu a porta dos estudiosos.

O povo convenceu-se de que era ignorante mesmo. Os estudiosos é que sabiam e conheciam as coisas do povo melhor do que o próprio povo. Assim pensavam todos.

Agora, entrando na sua própria casa, o povo ficava silencioso e acanhado. Como se estivesse numa casa estranha, dos tempos passados, que não conhecia. Observava e estudava, em grupos pequenos, rodando na quase escuridão. Já nem mais se lembrava dos tempos de outrora, quando juntos falavam e brincavam no lugar onde agora estudavam, olhando sério, imitando os estudiosos, repetindo suas lições.

VI. Pouco a pouco, a porta da frente foi esquecida. Uma tempestade de vento a fechou. Ninguém a notou. Mas não fechou de todo. Uma fresta estreita ficou.

Cresceu o capim na frente. A mata vegetou, cobrindo a entrada, por falta de uso. Até o aspecto da rua mudou. Agora era só rua. Nada mais. Triste e deserta, um beco sem saída, sem os encontros do povo que por aí passava.

A porta do lado acolhia o povo, que entrava e olhava, admirado e extasiado. Tanta riqueza que não conhecia!

Por dentro, a casa ficou mais escura, por falta da luz que vinha da rua. Lâmpadas e velas supriam a falta. Mas a luz artificial modificava as cores.

VII. O tempo foi passando. A alegria da descoberta arrrefeceu. Diminuía o fluxo do povo que visitava a casa pela porta do lado, porta dos estudiosos. E a porta do povo que ficava na frente já não existia. Dela ninguém mais se lembrava.

O povo sabido, um punhado de gente, com visitantes ilustres de outros lugares, continuava a freqüentar a casa do povo, pela porta dos estudiosos. Lá dentro, fazia as suas reuniões, discutindo as coisas antigas da casa, coisas do passado.

O povo sofrido, a gente humilde, passava na rua, deserta e triste. Não se interessava pelas coisas antigas. Não entendia das brigas dos estudiosos. Vivia a vida, só isso fazia. Mas parecia que algo faltava. Não sabia o quê, pois não mais se lembrava. Faltava uma casa que fosse do povo.

VIII. Os estudiosos, alegres com as descobertas, continuavam os estudos. Fundaram até uma escola, para educar os meninos do povoado na ciência do passado. Seriam os seus sucessores na defesa da Casa do Povo. Assim pensavam.

Mas um dos dois ficou apreensivo com a falta crescente do interesse da gente. A massa do povo já não aparecia. Notou que a vida do povo já não era a mesma. Era menos alegre. Diferente de quando chegou. Cada um, agora, só pensava em si. Não havia mais encontros. Tentaram, é verdade, encontrar-se em outros lugares. Mas não deu certo. Os encontros programados levavam a um desencontro maior. Algo faltava. Ele não sabia o quê. Procurava sabê-lo.

E ele se perguntava: “Por que é que o povo já não comparece em sua própria casa? Por que é que não vem mais aqui para conhecer as coisas que nós dois descobrimos e defendemos para ele? Por que é que não vem mais aqui para conversar e encontrar-se, para brincar, falar e cantar?” Não tinha resposta para as perguntas que se fazia.

O outro estudioso nada disso notou, absorto, como estava nos seus estudos do passado. Reclamava até do colega: “Você anda muito distraído! Sua pesquisa não vale mais nada. Ela é muito superficial!” Exigia dele maior aplicação no estudo do passado e menor atenção para o povo da rua. Pois, afinal, era ele que mandava na expedição.

IX. Certa noite, aconteceu que um velho mendigo, sem casa, sem ter onde morar, entrou na mata que crescia ao lado da rua, à procura de um abrigo. E lá ele viu, sem saber o que era, uma fresta aberta, e por ela entrou. Na sua frente, se abriu uma casa enorme. Casa tão boa que o deixou logo à vontade. Parecia estar na rua e, no entanto, estava bem abrigado.

Na noite seguinte, voltou para lá. Voltava sempre. Foi dizê-lo aos seus amigos, todos mendigos, pobres como ele. Contava a descoberta como se fosse um segredo. Foram com ele. Entraram todos, um por um, pela fresta estreita da porta da frente, que um dia o vento bateu, sem conseguir fechá-la por inteiro.

De tanto entrar e sair pela porta da frente, o capim foi pisado, o mato abatido. Uma trilha estreita apareceu no chão, um caminho novo se abriu.

Sendo tantos os amigos que queriam entrar, empurraram a porta, e ela cedeu. Ficou um pouco mais larga a entrada, para o povo passar, para o sol entrar. A casa iluminou-se por dentro, ficou mais bonita. Ficaram mais à vontade. Grande foi alegria do povo.

X. A descoberta correu de boca em boca da gente humilde. Nada contavam aos outros. Era o segredo deles. “Aquela casa é nossa”, assim eles diziam. Mas a descoberta não podia ficar escondida. Era uma ingenuidade do povo simples que pouco reflete e não tem malícia.

De manhã, quando o relógio marcava a hora da abertura da porta do lado, para receber os visitantes ilustres, os faxineiros encontravam lá dentro sinais da presença do povo humilde. Ouviam até as suas risadas e conversas. Conversas de gente contente, bem à vontade, que não se incomodava com as coisas antigas, nem pagava para entrar. Risadas de gente que se sentia em casa, na casa que começava a ser, de novo, a Casa do Povo.

O fato foi levado ao conhecimento dos dois estudiosos. Um ficou bravo, o outro calou-se. O primeiro reclamou: “Como é possível tanta ignorância! Vão estragar e profanar a nossa casa! E o nosso esforço? O estudo de tantos anos? Onde ficou? Falou como se fosse o dono da casa. O outro retrucou: “A casa não é sua!” Os dois brigaram por causa da casa, por causa do povo.

XI. O outro estudioso escondeu-se, de noite, num canto da casa. Viu o povo entrar, sem pedir licença, para brincar, falar e cantar, para sentir-se à vontade e encontrar-se com os outros. Gostou de ver essa alegria na casa e esqueceu-se, por um momento, das riquezas antigas. Gostou tanto, que entrou na roda e brincou. Brincou, falou e cantou, a noite inteira. Coisa que de há muito não mais fazia. Nunca se sentira tão feliz na vida.

Descobriu, naquela hora, que tudo aquilo que tanto estudara, tinha sido feito pelo povo, para o povo poder alegrar-se na vida. Descobriu, então, a resposta para as perguntas que antes fizera. O erro estava na porta do lado. Esta desviou o povo da porta da frente, separou a rua da casa e a casa da rua, fez a casa ficar mais sombria, estranha ao povo, fez a rua tornar-se deserta e triste, um beco sem saída.

Também ele passou a entrar pela porta da frente. E assim fazia, todas as noites. Passava a ser conhecido e acolhido pelo povo que não distingue as pessoas que nele se misturam. Era um do povo.

XII. Entrando pela porta da frente, olhava a riqueza e a beleza da casa de um ângulo novo que ainda não conhecia. Vista à luz que vinha da rua e da alegria do povo, a casa revelava coisas lindas que os livros não ensinavam e as máquinas não descobriam.

Para ele, a casa tornou-se como a montanha majestosa que o sol ilumina, de repente, com seus raios gratuitos, vermelho-amarelos, no raiar de um novo dia. Tudo mudou, embora nada tivesse mudado. Tudo era como antes, e tudo era tão diferente. Uma nova esperança nasceu.

Começou a estudar os seus livros com um novo olhar e descobria coisas que o colega nem suspeitava. Seu gosto pelo estudo até aumentou, mas o colega não acreditou.

Estando no meio do povo e participando da sua alegria, o estudioso falava ao povo das riquezas da casa. Falava das coisas lindas que a casa possuía e que ele descobria à luz que vinha dos livros e do passado, e à luz que vinha da rua e da alegria do povo. Falava segundo a oportunidade que se dava. Sua voz não pesava nem abafava. Não fazia calar a gente humilde pelo peso da ciência e da sabedoria. Ensinava o povo, no meio da alegria, e aumentava nele o prazer de viver.

E ele dizia consigo: “Diante da vida do povo sofrido, a gente não fala, só sabe calar; esquece as idéias do povo sabido e fica humilde, começa a pensar…”

(Extraído do livro Por trás das palavras, de Carlos Mesters. Editora Vozes)