quinta-feira, janeiro 29, 2015

Minha homenagem e gratidão aos poetas!



O poeta é um cristo que morre sem fazer ideia da repercussão das suas palavras. 

A despeito disso, sai a semear palavras generosamente. Profusão de sementes. Porque a esperança do poeta não é a glória, mas a sua vocação. O fazer poético é já a glória. No tempo do cio poético ele faz amores. E esses amores transcendem sua expectativa, o seu objeto, o mercado e o tempo. A poesia é maior que o poeta.

Como canta Milton Nascimento, os poetas “fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos/ que jamais são alcançados, cansados, cansados/ nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem/ escrevem o que sabem que não sabem/ e o que dizem que não devem.”

O poeta não percebe, mas está polinizando a vida com palavras e imagens, ventilando ideias com sons, fazendo terapia com símbolos, antecipando o futuro com metáforas, promovendo encontro com o sagrado.

O poeta é um utópico, profeta e sacerdote. Morre mudo e muitas vezes sem fé, mas não sem ter amado e prestado atenção à vida.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

A m a r a m a n d o

A m a r a m a n d o


A Mara amando
Inventa um mundo bom
Onde cabe toda gente
E não entra a perfeição
Ama mais e espera menos
Não sem angústia e pesar

Há mar amando
Há janelas, horizontes e sóis
Mais beijos e abraços
Ouro, trigo, vinho e mel
Nova folha, cor e pincel
Licença do perdão

Amar amando
No gerúndio teimoso
Contra o ego e preguiça
Ainda que seja feio e pouco
É o amor o remédio
Para a loucura e o tédio

Amar a mando
Não do Livro e das leis
Dos anjos e do Divino
O amor é generoso
A dor do outro é o apelo
Ao amor que é a sua cura

Márcio Cardoso

terça-feira, janeiro 27, 2015

O amor é maior do que a fé


Há uma história no livro de Gênesis que é um retrato da saga humana. A história de Hagar e seu filho Ismael, cujo pai é Abraão. Como Sara, mulher de Abraão não podia dar a luz, teve a ideia de usar Hagar como “barriga de aluguel” para resolver o problema da descendência de seu marido. Isso gerou muita confusão na casa do patriarca.

Hagar fugiu para o deserto pela primeira vez, mas voltou para a casa de Abraão. Depois de 14 anos, Sara, milagrosamente, deu à luz a Isaque. Confusão sobre confusão, pois agora não somente as mulheres disputavam, mas também os filhos, o que fez Sara coagir Abraão a expulsar a escrava com seu filho.

Hagar e Ismael vão para o deserto pela segunda vez. Mas agora acaba o pão e a água e a fé e força para viver. Hagar se afasta de seu filho para não o ver morrer e começa a gritar e a chorar.

No meio de sua crise, gritos e soluços, Hagar ouve a sugestão divina “levante-se, pegue seu filho e abrace-o!”. É o que faz Hagar: aperta o menino contra seu peito e então a vida renasce: Hagar percebeu um poço que sempre esteve ali.

O que salvou Hagar e Ismael não foi a fé, mas o amor.

O abraço – um gesto desprovido de sofisticação, certezas, teologias os devolveu à vida. Imagino que enquanto Hagar abraçava o seu filho pensava “meu filho precisa de mim, não vou desistir, não vou entregar os pontos, meu filho precisa de mim! Não por mim, mas por ele!"

O amor de Hagar pelo filho a salvou. A situação de Ismael reivindica o amor de Hagar. E o amor em ato salva os dois.

Responder por alguém nos cura, nos salva, nos devolve à vida. Amar nos livra de uma vida sem sentido. A resposta para questão do ser é amar.

Quando na bifurcação da vida, onde as certezas nos abandonam, onde nos vemos impotentes, onde nos falta a fé, o que pode nos salvar são os nossos amores.

Quando estiver encrencado não fique dando voltas em torno de si, mas se descentralize e ame a alguém.

Quantos projetos não colapsaram por causa da urgência de amar!

Um sacerdote não desistiu de sua vocação não porque ainda restasse fé, mas por se lembrar do bem que seu ofício fazia a algumas pessoas. Por essas pessoas o sacerdote não desistiu e no meio do caminho se re-encantou pela vocação.

Alguém desistiu de dar cabo da vida porque se lembrou de um carente: “fulano precisa de mim; por ele eu não posso tirar a minha vida!”

Um divórcio foi adiado porque os filhos ainda eram novos. O homem/a mulher adiou sair de casa e depois de algum tempo se apaixonou novamente pelo parceiro (a).

Relacionamentos de pais e filhos foram renovados porque os filhos, por amar, entenderam que os pais precisavam do seu perdão, porque ninguém é perfeito.

O amor é maior do que a fé. Agora entendo um pouco melhor o apóstolo.

Nos piores dias da sua vida, faça como Hagar, “se levante e abrace a alguém!”. A vida vai colar em você. Você vai colar na vida. Você terá boas razões para não desistir.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Deus não é perfeccionista.



No livro de Gênesis, na poesia da criação, há um refrão que o Criador repete de boca cheia ao contemplar a obra que havia feito: “Bom. Bom. Muito bom!”. A frase traduz muito mais um deleite, uma gratidão – festa da memória – do que uma constatação de ter alcançado a perfeição, o definitivo, o acabado.
Reflita. O Criador conseguiria ou não aperfeiçoar os mares, o sol, as estrelas? Melhorar um pêssego? Se sim, as estrelas, o sol, os mares, o pêssego não são perfeitos, apesar de serem maravilhosos! Mas para Deus já estava bom. Não estava perfeito, mas Deus deu por encerrada a sua obra. E com gratidão.
Lembre-se também da frustração de Deus com as decisões livres dos homens e mesmo assim sua estima, gratidão e esperança pela humanidade não se cansam.
Quem sofre com o perfeccionismo não se deleita porque não consegue terminar o que está fazendo. Nunca se dá por satisfeito porque nunca alcança a perfeição. “Bom” para um perfeccionista é muito ruim. Para ele tem que ser perfeito. Daí seus dias são marcados pela ansiedade, frustração, desgaste emocional e azedume.
O Criador soube terminar, parar. Certamente tinha mais criatividade para fazer outras coisas, mas escolheu um momento para quietude e deleite! A paz reside muitas vezes em sabermos “terminar” as coisas, respeitarmos as etapas, respeitarmos a dinâmica do nosso corpo, a saúde e qualidade de vida.
É compreensível que num mundo de concorrência onde nós somos medidos por resultados, fiquemos sempre com a sensação de que estamos devendo algo, que estamos ficando para trás, de que o que fizemos não foi bom. Mas isso é um ácido que corrói a nossa existência. Precisamos de outra medida de tempo que não seja o relógio.
O que marcava o tempo/período na criação de Deus não era o relógio, o calendário, as estações, mas a gratidão na boca do Criador “bom, muito bom!”. Era esse o refrão que pontuava os “dias” de Deus.
Nossos dias e dinheiro são medidos pelo tempo, nossa capacidade também. Chronos é um deus terrível que devora seus adoradores impiedosamente. A única chance que nós temos de não sermos devorados por esse deus (tempo) é o exercício da gratidão, do olhar gracioso para a nossa caminha que, apesar de não ter sido perfeita ou obtido o êxito que esperávamos, foi boa.
Nesse período onde mais um ciclo se fecha, escolha pontuar com gratidão e doçura e não com o relógio, com os números, com os sucessos.
Olhe com ternura e tolerância para a sua história. Talvez você tenha conhecido a frustração de não ver seus sonhos realizados, a decepção com as metas do ano, o inconformismo de ter se dado tanto e ter alcançado tão pouco, não ter conseguido atender às expectativas suas e de outros, mas se você foi decente e honesto no seu ofício já valeu à pena. Se você foi verdadeiro, íntegro e trabalhou: isso já é bom!
Lembre-se que muitas coisas não dependem de você. Há muitas outras forças que concorrem com os nossos desejos como o acaso, a autonomia da natureza e a liberdade humana.
Pare um pouco, veja quanta coisa boa já lhe aconteceu. Quanta vida você já viveu, como sua vida tem sido interessante. Cultive um coração grato pela vida, por aquilo que conseguiu realizar, por ter se mantido fiel/leal às suas ideias, pelo amigo Deus, pela sua família e amigos.
E para que esse exercício seja também solidário e inclusivo, use da mesma tolerância e doçura com o próximo. Ele é muito parecido com você!
Que você possa chegar ao final do ano e dizer “foi bom!”.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Pai Nosso, o Deus que ora.



Meu filho que habita a terra,

seja humano o seu nome, bem como sua vocação, ofício e sina.

Abra os olhos para o horizonte lindo que inaugurei entre os homens e mulheres e construa com amor e esperança novos vilarejos.

O imponderável habita terra e céus, mas use a liberdade que lhe resta.

Compartilhe o pão que tem e terá mais prazer e beleza. Mais contentamento há na partilha do que no acúmulo.

Não permita que os ressentimentos habitem sua mente e coração. Não espere a perfeição do outro assim como não espero de você.

Tenha coragem e esperança diante das tempestades, que mesmo fracassando provará o doce da dignidade.

Lucidez para discernir maldades nunca é demais.

Em nome da Vida, amém!

segunda-feira, outubro 13, 2014

Quem posso ser?



Uma das mais belas cenas da bíblia é o reencontro de Jacó com seu irmão, Esaú:

“Esaú correu ao encontro de Jacó e o abraçou e beijou. Os dois choraram. (…) Disse Jacó: ‘quando vi o seu rosto, foi como se tivesse visto o rosto de Deus sorrindo para mim’.”

O que há nessa cena de tão especial? O seu contexto…

Jacó fugiu de casa jurado de morte por Esaú. Uma série de atrapalhadas na família disseminou um desafeto entre os dois. Certa vez, Esaú voltando faminto de um dia de caça, desejou um cozido, especialidade de Jacó. O irmão, sabido, sugeriu uma permuta a Esaú: “o seu direito de filho mais velho pelo meu prato!”. Esaú topou. O primogênito não teve os olhos maiores que a barriga, mas a barriga maior do que a cabeça.

Além dessa cena, Jacó, por sugestão da mãe (Rebeca), engana seu pai (Isaque) que de tão velho já não enxergava bem.

Isaque havia falado para Esaú que antes de morrer queria abençoá-lo, e o pediu que fosse caçar e depois fizesse seu prato predileto e levasse a ele. Esaú foi à caça.

Rebeca, ouvindo a conversa dos dois, se apressou para coagir seu queridinho Jacó do seu plano genial. Rebeca vestiu Jacó com as melhores roupas de Esaú, colocou em sua nuca e mãos peles de ovelha, pois Esaú era peludo. Meio a contragosto, Jacó segue com o plano. Ele se passa por Esaú, enganando o seu pai, e ganha a benção que seria de seu irmão.

Quando Esaú fica sabendo da sabotagem fica furioso e jura de morte Jacó, que foge para casa do seu tio (Labão) e ali constrói o seu pé-de-meia: junta muitos animais, empregados, casa e tem 11 filhos.

20 anos depois, na volta para casa, Jacó fica sabendo que Esaú vai ao seu encontro. Pouco antes desse encontro, Jacó fica sozinho num vale e trava uma luta com um ser misterioso que o escritor da história dá o nome de “Anjo de Deus” ou “Deus”.

A luta que Jacó trava consigo mesmo, a construção da sua identidade, a luta com o seu outro “Jacó” é tão intensa que a melhor metáfora é “Deus”.

Jacó está apavorado, pois lembra que seu irmão lhe jurou de morte. Em seu solilóquio-oração-crise existencial, Jacó se pergunta “quem sou eu?”, “que tipo de pessoa eu quero ser?”. “quem vou me encontrar com Esaú?”

O texto não diz, mas tenho a impressão que Esaú, durante a saga-caça da vingança, faz a mesma pergunta: “vou me vingar do meu irmão ou vou dar um cheiro em seu cangote?”, “derramo sobre ele o meu fel ou toda a minha saudade?”, “eu chego diante de Jacó como vingador ou como irmão”, “revejo meu irmão com face de ódio ou sorrindo. Com cara de um Diabo ou cara de Deus?”

Esaú escolhe o amor. Em vez de continuar sua história como um ressentido, acolhe seu irmão com abraço e beijo; em vez de escrever o capítulo da sua história com a imagem de um adversário, escreve com a imagem e semelhança de Deus.

Agora, se coloque atrás de um arbusto próximo ao Vale de Jaboque há 4 mil anos e veja a cena novamente:

“Esaú correu ao encontro de Jacó e o abraçou e beijou. Os dois choraram. (…) Disse Jacó: ‘quando vi o seu rosto, foi como se tivesse visto o rosto de Deus sorrindo para mim’.”


Eis uma boa pergunta que pode orientar as nossas escolhas e maneira de viver as relações: “qual o seu nome?”.


quarta-feira, julho 16, 2014

Deus é uma projeção humana?


Mais uma vez há que se fazer uma reverência a Freud que dizia que Deus é um pai idealizado, Deus é uma projeção humana. Muitas ideias sobre Deus nascem de nossas frustrações, idealizações, inveja, avareza, desejo de vingança, justiça com as próprias mãos. Deus nasce de nossa personalidade e sonhos.

Um exemplo simples. João Batista se referindo a Jesus disse “importa que ele cresça eu diminua”. Uma interpretação equivocada dessa frase diz que a minha humilhação resulta na exaltação de Deus, que para Deus ser glorificado eu tenho que me diminuir. Resultado disso é o culto da depreciação humana.

Mas Deus não é assim: Deus não precisa da minha diminuição para ele aparecer. Isso é um reflexo da condição humana: há pessoas que sim, precisam diminuir as outras para serem vistas. Há quem deprecie as conquistas do outro, use de maledicências, sublinhe os erros do outro para aparecerem.
Sim, em muitos casos, Deus é o reflexo da condição humana e suas projeções. Essa ideia sobre Deus tem tantas sombras e luzes como tem um humano. Mas Deus não é nem aquilo que eu não consigo ser e nem aquilo que eu sou. Deus é outro. Quem?

Como fazer teologia sem ficar refém da subjetividade e idealizações. Deus pode ser mais do que as nossas projeções e expectativas? Deus não é um reflexo de quem somos nós? Há como não fazermos caricaturas do Divino? A Revelação não é sempre fruto de minhas projeções e expectativas?

Eu penso que a dificuldade reside na afeição a um Deus metafísico, sem rosto, um Deus autoritário e vingativo que tem como metáforas mais usadas o Rei, o Soberano e Senhor.

A Revelação não nasce de ideias etéreas lançadas sobre um Deus que olho nenhum viu. De onde então? De Jesus de Nazaré, o Deus encarnado. Ele é a imagem do Deus invisível.

Caricaturas horríveis nascem porque deixamos de olhar para o Deus encarnado em Jesus, o Deus que é imitável, o Deus cuja maneira de viver podemos imitar. Revelação não é uma projeção num Deus metafísico, Revelação é o Jesus Nazareno lançando luzes sobre a nossa humanidade. Revelação não nasce de ideias etéreas lançadas num vácuo sem rosto, num hipotético Ser que é fruto de meus “melhores” pensamentos. Revelação nasce dos pés empoeirados de Jesus que desejou iluminar a vida, os valores, as relações dos humanos.

Mas aí fica outra pergunta: que Jesus? Porque o que chegou a nós sobre Jesus é o escrito de apóstolos, homens como nós, que escreveram a partir de suas perspectivas, crenças, visão, expectativas e também projeções. Esse “Jesus” também carece de interpretações.

Daí a necessidade de colocarmos as nossas ideias sobre Deus numa roda de conversa e que essa roda de conversa se abra para outra roda de conversa, constantemente e progressivamente, dialogando com outras áreas do conhecimento numa ciranda de tolerância e apreciação do outro.
Quem sabe assim teremos uma faísca da Revelação, um vislumbre da glória de Deus.


quarta-feira, maio 28, 2014

Humanos e isso nos basta.


Acredito que as frustrações das pessoas, o desânimo, sempre "estar aquém", vontade de desistir em diversas áreas da vida - trabalho, religião, relacionamentos, família - nascem de suas idealizações, expectativas exageradas, o desejo por uma situação ideal.
E ainda por cima, o jogo de aparências da sociedade nos faz sentir que estamos ficando para trás, perdendo algo, fracassando em muitos aspectos.
Mas deixa eu contar um segredo: há muita encenação, mito, mascaramento nas pessoas que vemos passar. "A grama do vizinho é mais verde", diz o ditado popular.
Pessoa "bem resolvida" é um mito. Bem resolvida é a pessoa que já morreu. Casais bem resolvidos, filhos bem resolvidos, mãe bem resolvida, pai bem resolvido, relacionamentos bem resolvidos...tudo isso é um mito que nos enche de uma culpa indevida.
Nós somos seres humanos, frágeis tentando dar conta da sobrevivência, da criação, da educação, da espiritualidade. Tudo o que conseguimos ser é humanos. E esse é o pé de igualdade do rico, do pobre, do casado, solteiro, viúvo, desquitado, da mãe/pai solteiro, do filho, adolescente. De perto, todos nós somos um lindo drama. Uma história complexa, rica, cheia de potencialidades.
E nessa caminhada podemos ter a graça de encontrar pessoas humanizadas. Podemos ser a graça de pai, mãe, parceiros, filhos, irmãos humanizados, que não esperam do outro mais do que nós mesmos podemos dar.
Siga o conselho de Nietzsche "espere menos, ame mais". O melhor lugar é onde você está. Você pode fazer o ambiente. O tempo com seus queridos, ainda que seja pouco, pode ter a qualidade de uma eternidade se você não esperar mais nada.
Você pode fazer as pazes com sua história, com suas contradições, com seus fracassos, com sua personalidade, com seu jeito esquisito, com suas manias. Quem disse que você precisa ter um "perfil ideal" para ser feliz, aceito, amado? Todos nós, feios, bonitos, altos, baixos, magros, gordos, tímidos, carismáticos, "pavio curto", culto, indouto, enrolados em nossas fragilidades somos dignos de amor e perdão.
Não se culpe por ser humano! Ao seu lado você pode encontrar um outro humano e compartilhar a vida.

segunda-feira, abril 14, 2014

Compaixão.


Na parábola do bom samaritano é comum “descermos a lenha” nos líderes religiosos, na religião, na igreja. Ainda mais que, nos últimos anos, se abateu uma onda de “decepcionados com a igreja” (eu reconheço que em alguns casos, legítimo).

É certo que na parábola Jesus critica uma religião ensimesmada, mas focar apenas no levita, sacerdote e instituição pode ser uma transferência de responsabilidades, matar um “bode expiatório” para se ver livre da “culpa”.

Portanto, proponho algumas paráfrases colocando outros personagens que, semelhante ao sacerdote e levita, fizeram vista grossa de tão ocupados com o conforto, trabalho e lazer. Como vocês já sabem o começo da parábola, eu sigo da segunda parte.

“Ia passando uma jovem senhora que ia ao salão de beleza. Quando viu a vítima do assalto à beira do caminho resolveu passar adiante, pois tinha hora marcada para cuidar da estética”.

“logo em seguida passou um rapaz que aparentava seus 25 anos, que também viu aquele pobre semimorto, mas como só tinha aquele horário para malhar, teve que acelerar seu carro”.

“Num carro utilitário, vinha numa certa velocidade uma família que estava saindo de férias. O carro teve que parar no semáforo. Todos olharam para o moribundo, mas quando abriu o semáforo, seguiram viagem voltando às histórias e gargalhadas de antes”.

“O miserável, já próximo da morte, ainda conseguiu ver um homem que passou desacelerando o seu carro fitando-o. Pensou que ele iria parar e ajudá-lo, mas ele não sabia que se tratava de um empresário que naquela hora tinha um negócio muito rentável para fechar”.

“O desgraçado à beira do caminho já fazia parte do cenário, mesmo contrastando com uma natureza verde e viva, com um trânsito intenso e transeuntes saudáveis. Passou o pedreiro com a sua marmita expressa, passou o gari com sua demanda de trabalho, o carteiro com seus passos rápidos e largos, um trabalhador responsável, o catador de papel contente com o que havia juntado, o professor exaurido por uma turma complicada, o corredor de rua para bater o seu recorde, mas ninguém se aproximou daquele desconhecido. “Vai que eu me complico!”. Ninguém teve compaixão, nem eu que queria terminar um texto que deixei inacabado.”

“Todos tinham boas razões para não amar. Na verdade tudo era um álibi forte para um ego vencedor”.

Mas ainda falta um substituto para o “bom samaritano”. Quem seria? Há! Pense em um de seus desafetos. Não tem? Seja honesto! Tá, então, se você acha mais confortável, pense num “distante” que você reprova.

“Um dos seus desafetos (ou quem você reprova), que naquele dia juntava vários ‘álibis’ justificáveis; como todos, com suas contradições internas, demandas de sobrevida e procriação, viu o desvalido já desacordado e se descentralizou. Teve compaixão dele, prestou todo socorro e pagou todas as despesas. Deixou um buquê de cravos e saiu preocupado com a educação dos seus filhos, o desencontro com a esposa e o fracasso nos negócios. O desgraçado, agora favorecido, nem chegou a conhecer o rosto do seu benfeitor. Quem sabe era um dos seus desafetos!”.

Ter compaixão é ignorar as boas razões para não fazê-lo.





sexta-feira, abril 04, 2014

Melhor do que o Céu.


O fascínio de alguns religiosos pelo céu me parece com uma negação da vida, um escapismo, uma desistência, um suicídio ao avesso.

Se bem que esse fascínio não passa de uma falácia piedosa, porque eu
não acredito, por exemplo, que exista alguém em sã consciência e saúde, que hoje deseja a morte, despedir-se de sua família, deixar os seus queridos para "ganhar" os céus.

Céu como negação da vida é anti-Deus, anti-Cristo. Um céu que abra mão de uma história da humanidade com toda a sua complexidade, erros e acertos, feiuras e belezas não é um céu, mas um inferno.

Uma ideia de céu que gera religiosos que protelem felicidade e, de maneira irresponsável vivam alienados no aqui e agora sem o mínimo de engajamento não merece ser chamado de céu.

Também desconfio que a ideia de céu que muitos religiosos alimentam é a de um prêmio, uma recompensa que afirme o seu ego-umbigo, que justifique vaidades e a sede de poder. Uma felicidade sádica de quem se alimenta em constatar que muitos não têm o que ele tem.


Semelhante a uma pessoa que tem um deleite não apenas no carro muito caro, mas principalmente em ver que muitos não têm aquele carro. Ele é uma exceção. Assim, o céu entra na lista dos bens de consumo de pessoas que mais felizes ficam se menos gente possui o que eles têm. Para a grande maioria se achar uma exceção é o céu!

Vida pós morte é uma verdadeira incógnita. Como, onde, quando ninguém sabe objetivamente.

Quando Jesus afirma “... voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” e “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”, em outras palavras, Jesus está dizendo que o lugar para onde se vai é ele próprio, e o caminho como se vai também é ele!

O destino final não é um lugar geográfico, e sim uma pessoa - o próprio Jesus! O caminho que leva até ele mesmo não é uma filosofia, um dogma, uma teologia – o caminho é o próprio Jesus! “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida”.

Qual o lugar? Jesus é o lugar! E qual é o caminho? Jesus é o caminho. Jesus é o fim em si mesmo e não um meio para alcançarmos alguma coisa.

Santo Agostinho disse que "existem coisas para serem desfrutadas e coisas para serem usadas".

As coisas que desfrutamos são um fim em si mesmo – uma manga rosa! As coisas que usamos são ferramentas de trabalho – a faca que corta a manga rosa! Jesus não é faca que corta a manga rosa, Jesus é manga rosa! Jesus não é uma ferramenta, Jesus é o fim em si mesmo!

Alguns pensam no céu como aquilo que Deus tem de melhor para nos oferecer! Mas não é! Deus não tem nada mais precioso a nos oferecer a não ser Ele mesmo. Nenhuma fortuna, bem material, talento, milagres, prazer, e nem mesmo o céu, se comparam ao imenso valor de Deus Pai.

Onde é o céu? Onde Jesus está! Do que é feito o céu? É feito de Jesus! É melhor do que ruas de ouro e mar de cristal.