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Sobre versões originais a respeito de Deus.


Percebi algo na relação fãs - artistas que reflete a tendência da grande maioria de cristalizar conhecimento, congelar versões e endeusar dogmas.
A primeira versão de um intérprete/cantor é recebida como "versão original" - o que já é uma sina. Para os fãs essa versão é incorrigível, definitiva e insuperável. Mas não somente a versão que por vir a fazer um outro intérprete da mesma obra é mal vinda. Se o mesmo intérprete ousa fazer uma nova gravação de sua versão original, variando no andamento, melodia, frases rítmicas os fãs o criticam.
O que acontece? Os fãs se afeiçoam de tal maneira à "versão original", que ousam limitar a cosmovisão, a imaginação e liberdade do artista! É quando a obra fica maior do que o artista, negativamente falando!
Ora, não peça a um artista que ele reproduza, que seja um genérico de si mesmo. Uma ofensa imperdoável.
Penso que essa tendência também se evidencia nas relações: "eu não te conheci assim!", "você mudou, hein!". E se repete cada vez que se deixa as ideias descansarem; quando não há diálogo com diferentes áreas do conhecimento.
Talvez, a tendência a que me refiro se mostra com força maior nas religiões, pois aí se congela versões "em nome de Deus".
Ora, o Espírito de Deus é o mais subversivo e artista de todos. A Revelação há que se contar em diversas versões - variações sobre o mesmo tema. Quando gente se afeiçoa acaloradamente à um dogma, não reconhece o Deus que ousou fazer diferentes interpretações da vida, fé, do homem e de si mesmo. As críticas vêm em novas versões da inquisição!
A força que move esse estreitamento não é só a afeição, mas também o desespero por uma ordem, sentido. E pior: a sede de controle e de poder.
É bom lembrar que nas Escrituras, Deus volta atrás, se arrepende e em muitos episódios se desdiz.
A Encarnação talvez seja a interpretação divina mas escandalosa e ousada. Aí Deus variou no tema, cores, texturas, verbetes, andamento, ideias, tom, harmonia.
Em Jesus, Deus diz "vocês ouviram o que foi dito, eu porém digo. .." É Deus desacatando as interpretações dos homens sobre Ele.
E não me queimem se eu falar que hoje o Espírito talvez dissesse sobre muitas coisas do Novo Testamento: "vocês ouviram o que eu disse [ou: o que escreveram sobre mim], porém, hoje eu digo a vocês..."
Interpretação é sempre interpretação. Uma simples leitura já é uma interpretação. Uma ideia sobre Deus não é Deus.
Sobre Deus não há versões originais e definitivas.

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