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A vida eterna começa aqui e agora.

Certa vez um jovem rico, religioso, moralmente correto, dono de muitas propriedades perguntou a Jesus: “que farei de bom para alcançar a vida eterna?”. A resposta de Jesus me fez pensar que a pergunta do jovem teria sido uma pergunta sem sentido; uma pergunta fora de lugar. “Por que me perguntas acerca do que é bom. Bom só existe um. Mas se queres entrar na Vida...” Ou seja: uma boa ação que garanta favores celestiais é impensável; um ser humano muito bom para se bastar inexiste.
A pergunta que o jovem faz é absurda, mas a resposta de Cristo pode lhe socorrer de uma vida religiosa, gnóstica, avarenta e escapista. “’Mas se queres entrar na Vida... ’ se é a respeito, jovem, do engajamento na Vida, de uma participação responsável no Viver, nós podemos conversar.”
A questão não é alcançar a vida eterna, a questão é entrar na Vida. (“Aliás, que tal entrar na Vida não possuindo? Que tal me seguir mais leve? Venda suas propriedades e dê aos pobres!”).
“Alcançar a vida eterna” como se a vida eterna fosse uma casa de veraneio, uma chácara, o lugar da ociosidade eterna, do capim na boca, pescando agachado, ouvindo canções angelicais ininterruptamente é inconcebível. Além de ser tedioso, sinceramente!
Não! A Vida é dinâmica e já começou! O Reino dos céus está entre nós!
A questão não é ganhar a vida que está me esperando em algum lugar geográfico, mas sim, entrar na Vida que já está fluindo, que já está acontecendo. A vida não espera inerte em algum lugar, ela está em movimento desde agora. E deseja acompanhantes, agentes, cúmplices! Esperar a vida eterna para que se possa viver é não viver, é já morrer. “Cadáver adiado que procria” (Fernando Pessoa).
O reino dos céus não é um presente que se ganha. “Ganhei minha vidinha eterna!”. A vida eterna é um projeto onde eu entro, onde eu me enfio de cabeça aqui e agora e vou vivendo em todo o seu movimento. Uma vida eterna que se ganha é uma vida muito pequena, uma vida que se pode pegar, apalpar, uma vida menor do que eu.
Eu não consigo abarcar o reino, é o reino que me abarca; não sou eu que envolvo a vida eterna, é a vida eterna que me envolve. Eu não consigo garantir a Vida, é a Vida que me garante. O povo tem a mania de querer garantir a salvação como se ela fosse uma poupança celestial, mas o fato é que é a salvação que nos garante uma vida boa, bem vivida com Deus e com o próximo.
Querer garantir a salvação é medíocre; ficar se policiando como estão os potinhos que garantem a vida eterna é pequenez e tira o nosso foco da vida aqui e agora. Manter os olhos somente na vida eterna é escapismo, fuga da realidade, irresponsabilidade com a vida – é blasfêmia. É negar a vida – o que a religião tem sugerido.
Do que adianta a preocupação com a vida após a morte se o próximo está nu, preso, doente, pobre, oprimido? Do que serve uma religião escatológica, mas que não me ensina a viver diante dos desafios da vida? Do que vale uma religião apocalíptica, mas que castra as possibilidades de se ter prazer na vida?
A proposta do cristianismo é: viva a vida em toda a sua plenitude; os momentos maus e bons; viva a vida intensamente com tudo o que ela tem para oferecer. Carpe diem!
O anúncio do evangelho é que o Reino já chegou; a vida eterna começa aqui e agora; vamos viver a Vida, embebidos pelo ideal do Reino.
Rubem Alves tem uma frase que gosto muito: “o futuro não é resultado do presente, é o presente que é engravidado pelo futuro”
Os sonhos, o ideal é que movem nossas pernas e braços para trabalhar, é o futuro que engravida o nosso presente de significado, alegria, esperança, dignidade, justiça, amor. Futuro que fica nos esperando no futuro nos faz esperar, conformar, escapar... Mas o futuro que penetra o presente concebe o reino de Deus!
A idéia da vida eterna não é para cruzarmos os braços e esperarmos Jesus voltar, mas para começarmos a viver já – Jo 10.10

O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.

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Comentário do Salmo 123

Salmo 123

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