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A letra mata... (um texto de Rubem Alves)

Um texto são palavras mobilizadas no papel pela química da tinta. Quando elas apareceram pela primeira vez, seu estado não era esse: mais se pareciam com pássaros selvagens, batendo as asas... O professor [teólogo-cientista] armou suas arapucas, pegou os pássaros, selecionou os que lhe interessavam e engaiolou-os com papel e tinta. Pobres palavras... Perderam a liberdade. Agora estão congeladas no tempo e no espaço. Mas depois, quando o professor [teólogo-cientista] se puser a lê-las, será a sua vez de perder a liberdade. Agora, sob o comando das palavras escritas, ele será obrigado a dizer aquilo a que elas o obrigam. A química prende as palavras no papel. Mas, no momento da leitura, a física da luz faz que elas voem do papel para os olhos, dos olhos, para a morada dos pensamentos, e daí para a boca. E o “lente” as transforma em sons. Ele as diz. Se, por acaso, pássaros diferentes passam batendo as asas, ele faz de conta que não os vê. Se ele se sente tentado a voar com eles, o texto o chama de volta. Barthes, em seu maravilhoso livro sobre a fotografia, diz que cada foto é uma imagem da morte. O que se vê é um momento que já foi, que não mais existe. A mesma coisa pode ser dita de um texto. O que nos faz lembrar a sabedoria dos textos sagrados: “... a letra mata, mas o Vento faz de novo viver” (1 Co 3.6). (O poeta, o guerreiro, o profeta – Rubem Alves)

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