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Mais um gole de beleza de Muriel Barbery.

“Quando fomos embora [do asilo], depois de ter beijado vovó e prometido voltar logo, minha irmão disse: ‘É, vovó parece bem instalada. Quanto ao resto... vamos nos apressar para esquecer isso bem depressa’. Não vamos fazer picuinha com o ‘apressar bem depressa’, o que seria mesquinho, e concentremo-nos na idéia: esquecer aquilo bem depressa. Ao contrário, não se deve de jeito nenhum esquecer aquilo. Não se devem esquecer os velhos de corpos estragados, os velhos que estão pertinho de uma morte em que os jovens não querem pensar (por isso confiam ao asilo o cuidado de levar seus parentes, sem escândalo nem aborrecimentos), a inexistente alegria dessas derradeiras horas que deveriam ser aproveitadas a fundo e que são padecidas no tédio, na amargura e na repetição. Não se deve esquecer que o corpo definha, que os amigos morrem, que todos nos esquecem, que o fim é solidão. Esquecer muito menos que esses velhos foram jovens, que o tempo de uma vida é irrisório, que um dia temos vinte anos e...

Um pouco de "Elegância do Ouriço", de Muriel Barbery

"... é a primeira vez que encontro alguém que procura as pessoas e que vê além. Isso pode parecer trivial, mas acho, mesmo assim , que é profundo. Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes. Se nos déssemos conta, se tomássemos consciência do fato de que sempre olhamos apenas para nós mesmos no outro, que estamos sozinhos no deserto, enlouqueceríamos. Quando minha mãe oferece petitsfours da casa ladurée à sra. de Brolglie, conta a si mesma a história de sua vida e apenas mordisca seu próprio sabor; quando papai toma café e lê jornal, contempla-se num espelho do gênero manual de autoconvencimento; quando Colombe fala das aulas de Marian, deblatera sobre seu próprio reflexo, e, quando as pessoas passam diante da concierge [zeladora/porteira], só vêem o vazio porque ali não se reconhecem. De meu lado, suplico ao destino que me conceda a chance de ver além de mim mesma...

a música de minhas férias: "É o que me interessa", de Lenine e Dudu Falcão.

Daqui desse momento do meu olhar pra fora o mundo é só miragem a sombra do futuro a sobra do passado assombram a paisagem Quem vai virar o jogo e transformar a perda em nossa recompensa quando eu olhar pro lado eu quero estar cercado só de quem me interessa Às vezes é o instante a tarde faz silêncio o vento sopra a meu favor às vezes eu pressinto e é como uma saudade de um tempo que ainda não passou Me traz o seu sossego atrasa o meu relógio acalma minha pressa me dá sua palavra sussurra em meu ouvido só o que me interessa A lógica do vento o caos do pensamento a paz na solidão a órbita do tempo a pausa do retrato a voz da intuição A curva do universo a fórmula do acaso o alcance da promessa o salto do desejo o agora e o infinito só o que me interessa

PARADOXOS

Sábado passado toquei no ArteSã, evento promovido pelo Instituto Ser Adorador (www.seradorador.com.br). Tive o prazer de ser acompanhado pelo Robertinho Marçal na batera, Júnior Finnis no baixo, Robson Anjinho no teclado e Rafael Magoo na guitarra. Confiram a música!

SABOREAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO.

Existir não é sinônimo de viver. Existir é “viver porque a vida dura”, citando Fernando Pessoa. Viver de verdade é sugar a seiva dos dias. Existir é empurrar a vida com a barriga. Leviano. Viver é saborear os frutos que a vida dá. Carpe Diem!(colha o dia!). Saborear é preciso, viver não é preciso. O que é necessário mesmo na vida é desfrutar. Viver por viver já é a morte. Vida com sabor é vida abundante! Para viver uma vida boa não basta apenas possuir coisas, é necessário usufruí-las (aliás, eu posso usufruir sem possuir!). Para viver bem não basta estar cercado de pessoas amadas, é preciso cultivar e desfrutar desse amor. Viver apenas para “cumprir tabela” é viver sem apetite. É ter uma família linda, mas não saber brincar com os filhos e namorar o parceiro; comer um prato delicioso sem sentir o gosto; ter uma vastidão de livros, mas não se deleitar com aquele que está lendo; ter uma casa maravilhosa, mas nunca “chegar para pousar”; ter uma pessoa leal bem próximo, mas não ter por el...

O que Deus falou?

Uma vez falou Deus E eu ouvi uma, duas, três, quatro... vezes. E ainda ouço. Ouço vários ecos de mensagens Traduzo vários sons de significado E assim vou ouvindo: uma aventura–interpretativa–progressiva. Queria Deus dizer uma sentença? Não alcanço. Não ouço o que Ele disse. Quem poderia fazê-lo? Já teria esgotado Deus. Não. Ouço a Revelação em série harmônica – Freqüências moduladas, timbre inconfundível. E quando Deus fala, eu peço socorro. Socorro às imagens, à criatividade, aos símbolos... Socorro ao Espírito Santo Que me sopra uma outra linguagem, outras visões, outros signos Pois o que Deus falou foi uma polifonia! E como que para ampliar o Inampliável A sua Voz se encarnou em Jesus Cristo A comunicação apaixonadamente profusa, corajosamente humana, verdadeiramente livre O Verbo empresta cenários, cenas, histórias Apela aos sentidos. Cor, mente, sabor, coração, textura, odor... E o Sagrado Dizer perpassa em entrelinhas, entre sons, entre imagens. ... E eu já não me aproximo da Ver...

Crucificaram a Palavra. Assassinaram a Imaginação (Ressonância ao texto do Elienai, "A Imaginação Divina")

No princípio Deus imaginou... O homem narrou o que percebeu A um amigo que contou ao seu amigo que recontou também... Escreveram a Revelação E os copistas trabalharam Os observantes aprenderam de cor a Torá... Na seqüência Deus se imagina gente... Palavra nua e crua, suor e sangue Com textura, cheiro e sabor, ao vivo e a cores A Verdade é amiga de pecadores! O Verbo conjuga metáforas, parábolas, hipérboles, trocadilhos... E o Outro Ajudador convida às visões, aos sonhos e às outras línguas Anotaram o Logos em pergaminho Os tradutores traduziram E a imprensa acorrentou Cartesianizaram e o sistematizaram Saturaram as Escrituras até não mais poder Crucificaram a Palavra Assassinaram a imaginação... ... E a Palavra à beira do caminho Espera um novo dizer Parceiros de quimera Contadores de histórias Poetas, profetas, utópicos e loucos Corações alados que descolem as Sagradas Letras Para lerem as Sagradas Imagens.

Se quiserem descobrir um novo sabor ao ler a Bíblia, leiam este texto do Elienai Júnior.

A IMAGINAÇÃO DIVINA Tão logo aconteceu, ainda nos primeiros instantes do ofício de pregador, desdenhei do que entendia como uma distração, ou superficialidade de muitos de meus ouvintes. Após um longo (e chato?) sermão, marcado por uma construção cuidadosa de conceitos, desembocando em uma conclusão bem assentada, ficavam apenas, como marcas distintivas, ou as comparações, ou as histórias ilustrativas, ou poesias, ou citações de filmes, ou músicas, utilizados como coadjuvantes do grande conceito. O brilho afetivo da poesia ofuscava levianamente a importância moral das asserções. Hoje, menos ocupado em me auto-afirmar, descrente da relação entre o que digo e o que sou, rendo-me. As pessoas não pensam através de conceitos. Pensam através de imagens. Palavra boa é palavra imaginada. (leiam o restante desde texto no blog www.elienaijr.wordpress.com)

MISSÃO COM CARA DE OMISSÃO

A grande maioria dos evangélicos pensa a evangelização em termos de proselitismo. Evangelizar para muitos protestantes é converter o outro, o diferente, a cultura à sua cosmovisão religiosa; fazer missão é tornar o não evangélico em evangélico, convencer aquele que está “do lado de lá” a vir para o “lado de cá” sob pena de ir para o inferno. Para muitos crentes a motivação de levar as boas novas é para que Deus não lhes cobre o sangue dos “condenados”! Todas as conseqüências que podemos imaginar a partir disso podem levar o nome de intolerância. Jesus anda por outros caminhos da missão. Evangelizar para Jesus não é um processo de aculturação; não é uma tarefa para ajuntar adeptos em torno de si; missão para Jesus não é conceder um passaporte para o céu. Em alguns casos Cristo age de maneira intrigante. Para o moço geraseno Cristo diz “não precisa me seguir, vai para a sua casa”. Aqueles que foram curados pelo Mestre ouviram dele “não conte a ninguém o que lhe aconteceu”. Ao encontrar p...

Paradoxos

O Eterno entre nós O Forte, frágil numa cruz O Homem Deus O Verbo sem palavras Segredo revelado Em mistérios e metáforas Riqueza insondável Dentro do meu coração Aquele que criou O universo foi gerado Aquele que se basta Abandonado se sentiu O Deus onipotente Sofre e chora a dor dos seus O Grande Ausente É companhia doce e ardente Deus é a saudade Em cada povo, raça e tribo Que está presente Em cada história, prece e língua A soma dos desejos De quem clama ou se cala O Nome que é sem nome A quem todos, Mesmo inconscientes, chamam... O Deus que olho nenhum viu No rosto do meu irmão Verdade inacessível Na boca de cada um O Deus que olho nenhum viu No rosto do meu irmão O Deus sem braço, perna e cor Se expressa através de nós (Márcio Cardoso)

Um poema de Walt Whitman, poeta norte americano.

Alguém pedindo pra ver a alma? Veja sua própria forma e seu semblante, Pessoas, bichos, plantas, Os rios de águas correntes, as pedras e as areias, Tudo retém os júbilos do espírito E os libera a seguir... Quero fazer poemas das coisas materiais pois imagino que esses hão de ser os poemas de mais espiritualidade, e farei poemas do meu corpo e do que há de mortal, pois acredito que eles me trarão os poemas da alma e da imortalidade.

Deus e a Beleza (Rubem Alves)

Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério. É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida. Reverência pela vida: é a forma mais alta de oração. Sem nome... O nome de Deus não pode ser pronunciado... Não precisamos dizer o nome "rosa" para sentir seu perfume. Não precisamos dizer o nome "mel" para sentir sua doçura. Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida. Há pessoas que se sentem religiosas por acreditar em Deus. De que vale isso? Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir seu nome. A pergunta não deveria ser "você acredita em Deus?", mas "você se comove com a beleza?" Deus nunca foi visto por ninguém. Ele se mostra na experiência da beleza. (do livro "Perguntaram-me se acredito em Deus". Edito...

O ESCÂNDALO DA CRUZ!

“Pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo”. (1Co 1.23) Uma cena nos Evangelhos que me toca especialmente é o sepultamento de Jesus! José, da cidade de Arimatéia, membro importante do Sinédrio e Nicodemos, um dos fariseus, desceram o corpo morto de Jesus da cruz, enrolaram-no em lençóis de linho com aromas e o depositaram num sepulcro novo em um jardim próximo ao Gólgota. Que cena comovente! Que experiência carregada de humanidade e paixão! Imagino que um coquetel de sentimentos fervia na chaleira de suas almas... O que se passava na mente de José de Arimatéia, seguidor de Jesus até então anônimo, ao tomar no colo o corpo desfigurado de Cristo coberto de sangue, pó, suor e lágrimas? E Nicodemos, que ficou com um nó na mente depois do encontro cheio de metáforas com Jesus, o que sentiu quando limpava as feridas de Cristo e o enrolava num lençol de linho? A especulação é infinita, tanto quanto nossa imaginação pode alcançar! É possível que aquele perfume tenha sido...

O Imprevisível

Lá vem o tempo Irreal, provisório Lá vem o improvável O virgem e o nada Tudo por vir a ser O imaginado O que se tem idéia O que virá ou não... Lá vem o outro Com a cara e a coragem Lá vem liberdade Surpresa e vontade Vem não sei de onde E o que traz na bagagem Comigo vai se encontrar Vem camarada ou não... Lá vem Aquele que já chegou O Eterno e presente Deus entre nós Mistério e segredo Aquele que é Hoje e amanhã Se houver o amanhã ou não... Vou no caminho Do tempo e do outro Sou sombras e luzes Um ser incompleto E sigo tentando Imprevisível Andante e trovador Se a vida sorrir ou não... (Márcio Cardoso - 15/01/2009)

Algumas linhas sobre a interpretação da Bíblia (Repintando a Igreja, de Rob Bell)

A interpretação [da Bíblia] de qualquer pessoa é nada mais nada menos que sua interpretação particular. Ninguém é objetivo. A idéia de que todo mundo, menos eu, estuda a Bíblia com bagagem, programas e lentes culturais é o supra-sumo da arrogância. Achar que eu posso ler a Bíblia simplesmente, sem ler nada de minha própria cultura ou ambiente, nem ler o que já se escreveu sobre ela, e extrair o sentido “puro” ou “preciso” não só é inverídico, mas também acarreta uma leitura muito destrutiva da Bíblia, que lhe furta a vida e a energia. Costumo ouvir muita gente dizer que sua igreja está crescendo por que ali “ensina-se somente a Bíblia”. Como se as outras igrejas não fizessem também isso. E que dizer das igrejas que ensinam a Bíblia e encolhem? A igreja que cresce em números talvez esteja crescendo por uma série de razões, mas a razão “ensinar somente a Bíblia” significa que eles estão ensinando uma determinada interpretação da Bíblia. Não são objetivos, não estão ensinando exatamente o...

Por favor, leiam o livro Repintando a Igreja, de Rob Bell, Ed Vida. (Abaixo recortes do seu livro)

Durante centenas de anos, os seguidores de Jesus, assim como os artistas, entenderam que é preciso prosseguir, estudando meios de vier em harmonia com Deus e uns com os outros. A tradição da fé cristã é cheia de mudanças, crescimento e transformação. Jesus teve parte nesse processo, levando as pessoas a repensar a fé, a Bíblia, o amor, a esperança, tudo enfim, e convidando-as a tomar parte em um processo infindável de prática de vida, de viver da maneira que Deus planejou que vivêssemos. O desafio para os cristão é, então, viver com paixão e convicção sem medida, permanecendo abertos e flexíveis, conscientes de que esta vida não é o quadro definitivo. Os tempos mudam. Deus não muda, mas o tempo, sim. Nós aprendemos e crescemos, o mundo a nossa volta muda, e a fé cristão é viva apenas quando é ouvida, retocada, inovada, quando abandona tudo que atrapalhas no caminho de Jesus e adota tudo quanto nos ajudará a ser cada vez mais o povo que Deus quer que sejamos. Há inúmeros exemplos desse ...

NATAL: DEUS PARINDO INCLUSÃO

A grande dádiva da Encarnação é a inclusão. Em Jesus ninguém é esquecido, depreciado ou excluído. Em Cristo pessoas de todo credo, cor, nação, gênero e idade são bem vindas. No Emanuel ninguém fica sem Deus. No Deus encarnado ninguém fica sem o “presente” do amor. Deus veio para todos e não apenas para uma parte; Deus se encarnou para que todos tenham vez e dignidade. “Deus amou o mundo de tal maneira...”. A boa notícia da Encarnação é que todos, sem exceção, são filhos queridos de Deus. A Encarnação deslegitima todo movimento/instituição que tenta convencer a um homem/ mulher que estão com a vida atrapalhada que eles precisam fazer rituais (geralmente incluindo dinheiro!) para serem amados de Deus; a Encarnação lembra àquele (a) que se deixou convencer por alguém ou por uma religião que é persona non grata que Deus lhe quer muito bem. A Encarnação lembra que Deus não é de um grupo seleto. A vida toda de Cristo, do nascimento à ressurreição, é esse anúncio maravilhosamente escancarado...

Uma citação de Henri de Lubac

"Nos últimos séculos, assistimos à 'evaporação reacionalista de Deus'. Mas era o Deus dos racionalistas. Soprai, e dissipai esse vapor. Isso não vai nos abalar. Nós respiraremos mais à vontade. O Deus verdadeiro, aquele que nós não cessamos de adorar, está alhures. Ele está em toda parte onde vós credes acançá-lo; Ele está em toda parte onde vós não o alcançais."

Uma versão do Gênesis

No princípio era um Arraial Com folguedo e arrasta pé A Trindade brincou de ciranda a noite toda Ao som do frevo, samba e afoxé E ouviu Deus que tudo era muito bom... No Tempo do Mistério – parir da Luz Viu Deus que o amor queria rodar Convidou outros pares para o festejo Homens, mulheres e crianças com suas piruetas E Deus viu que era bom demais... Atrás da Eternidade, na fecundação do vento Era um banquete com uma mesa larga Os brincantes de todos os gêneros eram bem vindos A cena era o sorriso do Pai Disse Deus com deleite: “gosto disso!”. No inicio Deus sugeriu um brinde: Ao Belo, minha subversiva Revelação! À Amizade, nós somos Comunidade! À Tolerância, meu Nome é Inclusão!