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MISSÃO COM CARA DE OMISSÃO

A grande maioria dos evangélicos pensa a evangelização em termos de proselitismo. Evangelizar para muitos protestantes é converter o outro, o diferente, a cultura à sua cosmovisão religiosa; fazer missão é tornar o não evangélico em evangélico, convencer aquele que está “do lado de lá” a vir para o “lado de cá” sob pena de ir para o inferno. Para muitos crentes a motivação de levar as boas novas é para que Deus não lhes cobre o sangue dos “condenados”!

Todas as conseqüências que podemos imaginar a partir disso podem levar o nome de intolerância.

Jesus anda por outros caminhos da missão. Evangelizar para Jesus não é um processo de aculturação; não é uma tarefa para ajuntar adeptos em torno de si; missão para Jesus não é conceder um passaporte para o céu.

Em alguns casos Cristo age de maneira intrigante. Para o moço geraseno Cristo diz “não precisa me seguir, vai para a sua casa”. Aqueles que foram curados pelo Mestre ouviram dele “não conte a ninguém o que lhe aconteceu”. Ao encontrar pessoas tementes a Deus em outras “tribos religiosas” Cristo elogia a sua fé.

Missão para Cristo não é levar as pessoas ao céu, mas trazer o céu às pessoas! “O Reino dos céus está entre nós”. Levar as Boas Novas é conscientizar as pessoas do óbvio. Evangelizar é promover o Reino aqui e agora; é abrir os olhos dos homens para a realidade de que o Reino de Deus está disponível a todos, apenas um instante de estender as mãos. “O Reino é de vocês. Vivam, desfrutem, compartilhem!”

“O Reino dos céus está entre vós” é um discurso que Cristo repete com paixão. Para o Império Romano é uma afronta; para os religiosos é impossível, mas enche os olhos dos marginalizados de esperança!

As boas novas de Cristo é que o Reino dos céus é uma realidade que pode ser vivida agora e ninguém precisa ficar de fora, todos podem entrar. Cristo vive como um agente do Reino espalhando misericórdia, justiça, inclusão, dignidade, pão, água, alegria. O Filho do Homem sinaliza o Divino numa terra seca de amor.

Fazer missão é cuidar da Terra como a nossa casa e cuidar dos seus moradores como nossos irmãos. E a vida de Cristo é o exemplo mais forte e inspirador. Cristo leva o seu discurso às últimas conseqüências; ao ponto de suscitar inimigos, traidores e algozes. Por ter sido um homem bom, Cristo foi levado à cruz – morreu pela causa.

A intenção de Cristo é salvar o homem para a lucidez, para a coragem e responsabilidade. Cristo quer libertar homens e mulheres que foram convencidas pela religião que são amaldiçoados por Deus por causa do pecado; Jesus quer livrar as pessoas de suas fantasias e infantilidades (que inclui as religiosas); Jesus quer inspirar o ser humano para uma ética da responsabilidade.

O Cristianismo, enquanto vida que se inspira em Cristo, tem uma mensagem revolucionária que olha para os pobres e oprimidos, uma mensagem utópica (a realidade pode ser outra!) com valores suficientes para vivermos uma vida boa!

Certamente os crentes farão mais diferença para a sociedade (e para o Reino!) se, ao invés do proselitismo e do olhar para o ser humano como um adepto em potencial, viverem o Cristo que estende as tendas do Reino de Deus e melhora a Terra!

Alguém pode perguntar: “e quem vai para o céu depois da morte?”. Esta questão já foi resolvida no Calvário, “está consumado!”; Cristo morreu por todos e Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo (2 Co 5.19). O que está em suspenso é outra questão: quem vai desvelar o Reino de Deus hoje? Quem vai compartilhar do Reino dos Céus agora?

Márcio Cardoso

Comentários

Carlos Bezerra disse…
Um texto muito inspirador meu amigo. Vamos em frente!
Grande abraço e que possamos sempre estar sensíveis a proclamação desse Reino em nossas vidas!
Abração

Carlos Bezerra

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Comentário do Salmo 123

Salmo 123

A ti levanto os meus olhos, a ti, que ocupas o teu trono nos céus.
Assim como os olhos dos servos estão atentos à mão de seu senhor
e como os olhos das servas estão atentos à mão de sua senhora,
também os nosso olhos estão atentos ao Senhor, ao nosso Deus,
esperando que ele tenha misericórdia de nós.
Misericórdia, Senhor! Tem misericórdia de nós!
Já estamos cansados de tanto desprezo.
Estamos cansados de tanta zombaria dos orgulhosos
e do desprezo dos arrogantes.

O salmo 123 está contado entre os poemas de subidas que vai do salmo 120 ao salmo 134. Essa parte do saltério é também conhecida como cânticos de romagem/romaria, cânticos dos degraus ou cânticos de peregrinação.
Quer sejam poemas cantados pelos peregrinos a caminho de Jerusalém, quando subiam para o Templo na época das festas sagradas como dizem alguns; quer sejam cânticos cantados pelos exilados que voltavam da Babilônia a Jerusalém ou cantados pelos levitas sobre os quinze degraus que levavam ao Templo como dizem outros; ou…

“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”

Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena!Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que é Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório.Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da vida. A presença de Deus é a causa da nossa existência; só…

Deus não é perfeccionista.

No livro de Gênesis, na poesia da criação, há um refrão que o Criador repete de boca cheia ao contemplar a obra que havia feito: “Bom. Bom. Muito bom!”. A frase traduz muito mais um deleite, uma gratidão – festa da memória – do que uma constatação de ter alcançado a perfeição, o definitivo, o acabado. Reflita. O Criador conseguiria ou não aperfeiçoar os mares, o sol, as estrelas? Melhorar um pêssego? Se sim, as estrelas, o sol, os mares, o pêssego não são perfeitos, apesar de serem maravilhosos! Mas para Deus já estava bom. Não estava perfeito, mas Deus deu por encerrada a sua obra. E com gratidão. Lembre-se também da frustração de Deus com as decisões livres dos homens e mesmo assim sua estima, gratidão e esperança pela humanidade não se cansam. Quem sofre com o perfeccionismo não se deleita porque não consegue terminar o que está fazendo. Nunca se dá por satisfeito porque nunca alcança a perfeição. “Bom” para um perfeccionista é muito ruim. Para ele tem que ser perfeito. Daí seus d…