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Paradoxos

O Eterno entre nós O Forte, frágil numa cruz O Homem Deus O Verbo sem palavras Segredo revelado Em mistérios e metáforas Riqueza insondável Dentro do meu coração Aquele que criou O universo foi gerado Aquele que se basta Abandonado se sentiu O Deus onipotente Sofre e chora a dor dos seus O Grande Ausente É companhia doce e ardente Deus é a saudade Em cada povo, raça e tribo Que está presente Em cada história, prece e língua A soma dos desejos De quem clama ou se cala O Nome que é sem nome A quem todos, Mesmo inconscientes, chamam... O Deus que olho nenhum viu No rosto do meu irmão Verdade inacessível Na boca de cada um O Deus que olho nenhum viu No rosto do meu irmão O Deus sem braço, perna e cor Se expressa através de nós (Márcio Cardoso)

Um poema de Walt Whitman, poeta norte americano.

Alguém pedindo pra ver a alma? Veja sua própria forma e seu semblante, Pessoas, bichos, plantas, Os rios de águas correntes, as pedras e as areias, Tudo retém os júbilos do espírito E os libera a seguir... Quero fazer poemas das coisas materiais pois imagino que esses hão de ser os poemas de mais espiritualidade, e farei poemas do meu corpo e do que há de mortal, pois acredito que eles me trarão os poemas da alma e da imortalidade.

Deus e a Beleza (Rubem Alves)

Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério. É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida. Reverência pela vida: é a forma mais alta de oração. Sem nome... O nome de Deus não pode ser pronunciado... Não precisamos dizer o nome "rosa" para sentir seu perfume. Não precisamos dizer o nome "mel" para sentir sua doçura. Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida. Há pessoas que se sentem religiosas por acreditar em Deus. De que vale isso? Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir seu nome. A pergunta não deveria ser "você acredita em Deus?", mas "você se comove com a beleza?" Deus nunca foi visto por ninguém. Ele se mostra na experiência da beleza. (do livro "Perguntaram-me se acredito em Deus". Edito...

O ESCÂNDALO DA CRUZ!

“Pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo”. (1Co 1.23) Uma cena nos Evangelhos que me toca especialmente é o sepultamento de Jesus! José, da cidade de Arimatéia, membro importante do Sinédrio e Nicodemos, um dos fariseus, desceram o corpo morto de Jesus da cruz, enrolaram-no em lençóis de linho com aromas e o depositaram num sepulcro novo em um jardim próximo ao Gólgota. Que cena comovente! Que experiência carregada de humanidade e paixão! Imagino que um coquetel de sentimentos fervia na chaleira de suas almas... O que se passava na mente de José de Arimatéia, seguidor de Jesus até então anônimo, ao tomar no colo o corpo desfigurado de Cristo coberto de sangue, pó, suor e lágrimas? E Nicodemos, que ficou com um nó na mente depois do encontro cheio de metáforas com Jesus, o que sentiu quando limpava as feridas de Cristo e o enrolava num lençol de linho? A especulação é infinita, tanto quanto nossa imaginação pode alcançar! É possível que aquele perfume tenha sido...

O Imprevisível

Lá vem o tempo Irreal, provisório Lá vem o improvável O virgem e o nada Tudo por vir a ser O imaginado O que se tem idéia O que virá ou não... Lá vem o outro Com a cara e a coragem Lá vem liberdade Surpresa e vontade Vem não sei de onde E o que traz na bagagem Comigo vai se encontrar Vem camarada ou não... Lá vem Aquele que já chegou O Eterno e presente Deus entre nós Mistério e segredo Aquele que é Hoje e amanhã Se houver o amanhã ou não... Vou no caminho Do tempo e do outro Sou sombras e luzes Um ser incompleto E sigo tentando Imprevisível Andante e trovador Se a vida sorrir ou não... (Márcio Cardoso - 15/01/2009)

Algumas linhas sobre a interpretação da Bíblia (Repintando a Igreja, de Rob Bell)

A interpretação [da Bíblia] de qualquer pessoa é nada mais nada menos que sua interpretação particular. Ninguém é objetivo. A idéia de que todo mundo, menos eu, estuda a Bíblia com bagagem, programas e lentes culturais é o supra-sumo da arrogância. Achar que eu posso ler a Bíblia simplesmente, sem ler nada de minha própria cultura ou ambiente, nem ler o que já se escreveu sobre ela, e extrair o sentido “puro” ou “preciso” não só é inverídico, mas também acarreta uma leitura muito destrutiva da Bíblia, que lhe furta a vida e a energia. Costumo ouvir muita gente dizer que sua igreja está crescendo por que ali “ensina-se somente a Bíblia”. Como se as outras igrejas não fizessem também isso. E que dizer das igrejas que ensinam a Bíblia e encolhem? A igreja que cresce em números talvez esteja crescendo por uma série de razões, mas a razão “ensinar somente a Bíblia” significa que eles estão ensinando uma determinada interpretação da Bíblia. Não são objetivos, não estão ensinando exatamente o...

Por favor, leiam o livro Repintando a Igreja, de Rob Bell, Ed Vida. (Abaixo recortes do seu livro)

Durante centenas de anos, os seguidores de Jesus, assim como os artistas, entenderam que é preciso prosseguir, estudando meios de vier em harmonia com Deus e uns com os outros. A tradição da fé cristã é cheia de mudanças, crescimento e transformação. Jesus teve parte nesse processo, levando as pessoas a repensar a fé, a Bíblia, o amor, a esperança, tudo enfim, e convidando-as a tomar parte em um processo infindável de prática de vida, de viver da maneira que Deus planejou que vivêssemos. O desafio para os cristão é, então, viver com paixão e convicção sem medida, permanecendo abertos e flexíveis, conscientes de que esta vida não é o quadro definitivo. Os tempos mudam. Deus não muda, mas o tempo, sim. Nós aprendemos e crescemos, o mundo a nossa volta muda, e a fé cristão é viva apenas quando é ouvida, retocada, inovada, quando abandona tudo que atrapalhas no caminho de Jesus e adota tudo quanto nos ajudará a ser cada vez mais o povo que Deus quer que sejamos. Há inúmeros exemplos desse ...

NATAL: DEUS PARINDO INCLUSÃO

A grande dádiva da Encarnação é a inclusão. Em Jesus ninguém é esquecido, depreciado ou excluído. Em Cristo pessoas de todo credo, cor, nação, gênero e idade são bem vindas. No Emanuel ninguém fica sem Deus. No Deus encarnado ninguém fica sem o “presente” do amor. Deus veio para todos e não apenas para uma parte; Deus se encarnou para que todos tenham vez e dignidade. “Deus amou o mundo de tal maneira...”. A boa notícia da Encarnação é que todos, sem exceção, são filhos queridos de Deus. A Encarnação deslegitima todo movimento/instituição que tenta convencer a um homem/ mulher que estão com a vida atrapalhada que eles precisam fazer rituais (geralmente incluindo dinheiro!) para serem amados de Deus; a Encarnação lembra àquele (a) que se deixou convencer por alguém ou por uma religião que é persona non grata que Deus lhe quer muito bem. A Encarnação lembra que Deus não é de um grupo seleto. A vida toda de Cristo, do nascimento à ressurreição, é esse anúncio maravilhosamente escancarado...

Uma citação de Henri de Lubac

"Nos últimos séculos, assistimos à 'evaporação reacionalista de Deus'. Mas era o Deus dos racionalistas. Soprai, e dissipai esse vapor. Isso não vai nos abalar. Nós respiraremos mais à vontade. O Deus verdadeiro, aquele que nós não cessamos de adorar, está alhures. Ele está em toda parte onde vós credes acançá-lo; Ele está em toda parte onde vós não o alcançais."

Uma versão do Gênesis

No princípio era um Arraial Com folguedo e arrasta pé A Trindade brincou de ciranda a noite toda Ao som do frevo, samba e afoxé E ouviu Deus que tudo era muito bom... No Tempo do Mistério – parir da Luz Viu Deus que o amor queria rodar Convidou outros pares para o festejo Homens, mulheres e crianças com suas piruetas E Deus viu que era bom demais... Atrás da Eternidade, na fecundação do vento Era um banquete com uma mesa larga Os brincantes de todos os gêneros eram bem vindos A cena era o sorriso do Pai Disse Deus com deleite: “gosto disso!”. No inicio Deus sugeriu um brinde: Ao Belo, minha subversiva Revelação! À Amizade, nós somos Comunidade! À Tolerância, meu Nome é Inclusão!

Deus é Papai!

Certa vez um dos discípulos se aproximou do Mestre e pediu “Senhor, ensina-nos a orar”. Jesus fez a oração conhecida de todos nós – a oração do “Pai Nosso” que, mais do que uma oração a ser repetida, é uma consciência de ser diante de Deus. Esse jeito de ser diante de Deus nos revela muitas verdades das quais gostaria de compartilhar uma. A oração de Jesus nos traz o discernimento que o Deus Criador é o Abba (literalmente, papai). No dialeto sírio ocidental do aramaico, Abba é o nome dado pela criança ao seu pai na intimidade do lar. A palavra mais fácil para uma criança articular, balbuciar. Esse é o escândalo do Evangelho. O Deus dos hebreus, da Revelação terrível no Monte Sinai, o Senhor dos Exércitos, o Rei adorado nos céus por anjos é o nosso Papai. O Deus de nome impronunciável do Antigo Testamento (YHWH) cabe na boca de uma criança. Ninguém antes de Jesus usou essa palavra para se dirigir a Deus. Em outras orações Cristo vai usar esta mesma palavra que foi traduzida para nós c...

Qual Deus? (Jean-Yves Leloup)

O que eu digo quando digo “Deus”? Cada palavra nos remete a uma experiência; trata-se de qual experiência? A experiência de Abraão? De Moisés? De Jesus?... Não se fala de Deus em lugar algum da Bíblia. Evocamos com pudor, às vezes com temor, YHWH, o Tetragrama impronuniciável que designa essa realidade, para além e para o interior dos universos, esse “Nada” do Tudo cuja Causa é Ele... Para Moisés, é um “Eu Sou”: a afirmação de uma presença, não nascida, não feita, não criada, no coração daquilo que é feito, nascido, criado, composto. Sua realidade é inconcebível e seu Nome, impronunciável. No entanto, se fizermos a experiência do nosso nada após um abandono (não ser mais nada pra alguém) ou um acidente, nós poderemos nos interrogar sobre “o Ser que nos faz ser”, que permite que participemos durante algum tempo da Vida e do seu Sopro, já que a nossa vida só depende de um sopro... Se Deus não é para nós uma experiência, uma liberdade no coração de nossos condicionamentos, uma leve brisa ...

Gestar

Que alegria maior que a vida? A vida é aqui perto. É agora. A vida é viver! A mesa com amigos e vinho Um café e um livro A canção acolhida Um cheiro rememorando Sentir-se agradecido O encontro de camaradas que festejam o Criador A oração balbuciada, gemida, silente... O tempo da criatividade e da imaginação A vida é a liberdade As escolhas e suas responsabilidades A aposta nas idéias A aventura de arriscar É “soltar a corda” – deixa viver! A vida é o trabalho e o shabat A ebulição de sentimentos paradoxais As casas de luto durante o caminho O dia mal inevitável O indesejado sofrimento As interpretações suas, minhas, dele O ser querido ou preterido Queixas e perdões... Os corpos exaustos dos amantes após o amor É criar com o Divino A mulher e o homem gestando outra vida É o Théo chegando, gente O Márcio, a Déia e o Igor contentes Que a Terra ganha mais um brincante Confesso que estou vivendo! Ontem ficamos sabendo o sexo do nosso bebê e já batizamos: Théo (4 meses). 01/10/08

A ORAÇÃO QUE NÃO PODE CALAR

Esses dias li num livro um diálogo de um romance de Pedro Bloch que me chamou a atenção: - Você reza a Deus, menino? - Sim, toda noite. - E o que lhe pede? - Nada. Só lhe pergunto se posso ajudar em alguma coisa. Eis aqui uma boa oração que precisamos fazer! Com muita freqüência a nossa oração reflete uma espiritualidade ensimesmada, egoísta e displicente. Uma oração que não contempla a necessidade do outro, não se coloca a serviço de Deus e que só repete “me dá, me dá, me dá!”. Muitos fazem suas orações de petições como se Deus já não tivesse se envolvido totalmente com a humanidade; como se o Criador não tivesse começado a sua obra, como se Ele não estivesse promovendo a salvação e presente todos os dias entre nós. As orações de muitos evangélicos mais parecem uma tentativa de lembrar a Deus do bem que Ele deve fazer (e aqui a imagem é ridícula!) do que uma conversa de alguém realmente grato com o Promotor da Vida; um dedo de prosa de quem confia no amor divino com o Grande Amável; u...

GRAÇA: UM JEITO GOSTOSO DE VIVER!

Certo dia Simão recebe em sua casa Jesus e seus discípulos, Lázaro e suas irmãs. Eles chegam com os pés empoeirados, os rostos desidratados e cansados da caminhada. Seis dias antes da Páscoa o clima era tenso e reticente. Jesus já havia anunciado a sua morte. Subitamente entra na cena Maria que quebra um frasco de perfume e dá um banho em Jesus da cabeça aos pés! A macharada fica indignada pelo desperdício! Maria quebra a rotina sisuda com um gesto de graça. Esta mulher adora para além do culto, da fala, da música. Ela ama para além das palavras: ela ama com gestos! Eu enxergo nesta cena muito mais do que um ritual, do que uma prática dos antigos para receber seus convidados: óleo na cabeça, lavagem dos pés... Para mim Maria (da Graça) deu um banho de afeto em Jesus num momento muito delicado de sua vida! MARIA ENXERGA NO MESSIAS UM ALVO DA GRAÇA E NÃO O MESSIAS PARA UMA FUNÇÃO! A palavra Messias carrega todo o peso de uma função, da tarefa, da missão de Jesus. Ele é o Ungido de Deu...

Comunidade de Amigos

A idéia de Jesus nunca foi criar uma religião organizada. Jesus não tinha em mente plantar uma igreja com uma placa denominacional e nem (pasmem alguns!) criar o Cristianismo. Aliás, Jesus nasceu judeu com direito a rituais judaicos e morreu judeu. Se fosse assim, eu penso que Jesus teria agido de maneira diferente nos seus últimos encontros com os discípulos antes de subir para o Pai. Teria dado mil recomendações, métodos e dogmas. Os profissionais da publicidade devem ter se indignado com Jesus porque se ele queria “dar certo” deveria ter agido de outra maneira! Um marketeiro diria que se Jesus quisesse “vender sua imagem” deveria ter se apresentado ressurreto no templo, por exemplo, e não a um grupo de pescadores frustrados numa praia. Um publicitário teria pedido a Jesus pelo menos um slogan, uma frase de efeito ou o nome da igreja, além da nobre comissão “... ide por todo mundo ensinando a obedecer a tudo que eu vos tenho ordenado”. Os teólogos de plantão queriam uma teologia sist...

Bruno Forte citando Agostinho em seu livro "A porta da beleza"

O que amo quando Te amo? Não a beleza corporal, a formosura da idade, nem o fulgor da luz, tão caro a meus olhos, nem as doces melodias de cânticos de todos os tipos, nem a fragrância das flores, dos perfumes, dos aromas; nem o maná ou o mel, nem os membros tão susceptíveis aos abraços da carne. Não é isso que amo quando amo meu Deus. Amo, no entanto, em certo sentido a luz, o som, perfume, alimento, abraço de meu homem interior que mora em mim; onde refulge em minha alma uma luz que não tem limites de espaço, um espaço que não desaparece no tempo, um perfume que o vento não espalha, um sabor que o apetite não diminui, um abraço que a saciedade não desfaz. Tudo isso amo, quando amo a meu Deus. E o que é tudo isto? Perguntei à Terra e ela me respondeu: "Não sou eu". E todas as coisas que nela existem declararam o mesmo. Interroguei os mares e suas profundezas, os seres vivos que aí se movem, e responderam: "Não somos teu Deus. Procura mais acima de nós!" Disse então ...

Citação de Mia Couto

... a minha mulher, passa a vida falando com Deus. E eu vou ficando calado. Mesmo aos domingos de manhã: fico calado. Assim, silencioso, vou rezando. Que a gente reza melhor é quando nem sabemos que estamos a rezar. O silêncio, doutor: O silêncio é a língua de Deus. Dito Mariano (personagem do romance)

Trecho de Humano, Demasiado Humano de Nietzsche.

A linguagem como suposta ciência . – a importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor. Na medida em que por muito tempo acreditou nos conceitos e nomes de coisas como em verdades eternas , o homem adquiriu esse orgulho com que se ergueu acima do animal: pensou ter realmente na linguagem o conhecimento do mundo. O criador da linguagem não foi modesto a ponto de crer que dava às coisas apenas denominações, ele imaginou, isto sim, exprimir com as palavras o supremo saber sobre as coisas; de fato, a linguagem é a primeira etapa no esforço da ciência. Da crença na verdade encontrada fluíram, aqui também, as mais poderosas fontes de energia. Muito depois – somente agora – os homens começaram a ver que, em sua crença na linguagem, propagaram um erro monstruoso. Felizmente é tarde demais p...