Pular para o conteúdo principal

SABOREAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO.

Existir não é sinônimo de viver. Existir é “viver porque a vida dura”, citando Fernando Pessoa. Viver de verdade é sugar a seiva dos dias. Existir é empurrar a vida com a barriga. Leviano. Viver é saborear os frutos que a vida dá. Carpe Diem!(colha o dia!). Saborear é preciso, viver não é preciso. O que é necessário mesmo na vida é desfrutar. Viver por viver já é a morte. Vida com sabor é vida abundante!
Para viver uma vida boa não basta apenas possuir coisas, é necessário usufruí-las (aliás, eu posso usufruir sem possuir!). Para viver bem não basta estar cercado de pessoas amadas, é preciso cultivar e desfrutar desse amor.
Viver apenas para “cumprir tabela” é viver sem apetite. É ter uma família linda, mas não saber brincar com os filhos e namorar o parceiro; comer um prato delicioso sem sentir o gosto; ter uma vastidão de livros, mas não se deleitar com aquele que está lendo; ter uma casa maravilhosa, mas nunca “chegar para pousar”; ter uma pessoa leal bem próximo, mas não ter por ela estima!
Esses dias eu bati o carro e isso me trouxe uma série de transtorno; mudou toda a minha agenda. Peguei o carro de volta depois de um mês. Mas esse acontecimento me trouxe uma reflexão: às vezes é preciso perder algo para depois ter de volta. Às vezes é preciso se distanciar de algo para saber o seu real valor. Lembrei de um conselho de Eclesiastes:
Atire o seu pão sobre as águas, e depois de muitos dias você tornará a encontrá-lo (Ec 11.1).
É isso que acontece quando, por exemplo, viajamos de férias e deixamos as atividades, o lugar, os pertences e as pessoas que amamos. Quando voltamos nós percebemos o quanto tudo é importante e bom! Isso também acontece quando ficamos vários anos sem ver um amigo querido! Só quando temos a sensação da perda, ou de fato, quando perdemos aquilo/aqueles que amamos é que despertamos para a sua importância.
Muitas vezes somos levados pela correnteza do ativismo, consumismo, egoísmo e, sem querer, nos distanciamos das coisas, das pessoas que mais amamos. Não é o nosso desejo, mas acontece; se “ligamos a vida no automático”, acontece. E é somente quando “perdemos” os nossos “objetos de amor” é que vemos como poderíamos ter desfrutado mais! É a esposa que pede a separação. Ou a perda de uma amizade por melindres. Ou um amigo que vai embora para nunca mais. E às vezes a perda é irrecuperável: a morte de um ente querido! Por isso as frases nos velórios do tipo “eu deveria ter dito o quanto ele é importante para mim”, “eu poderia ter curtido mais a sua amizade”.
Uma boa notícia é que a gente pode perder as coisas sem perdê-las. Como? Faça o seguinte exercício: se imagine sem as pessoas, sem as coisas que você mais ama? O sentimento que você terá pode levá-lo a valorizar mais os seus objetos de amor. Não espere o “dia mal” chegar, antecipe essa “perda” para ganhar. “Quem perde a sua vida a encontra”.
A vida é tão breve! Colha cada fruto da vida! Mas faça o seguinte: colha menos e saboreie mais! Curta mais a sua família; quando estiver em casa dê uma qualidade de tempo para seus filhos, beije mais o seu cônjuge. Saia com os amigos para jogar conversa fora, comer, beber. No culto comunitário abra os ouvidos e o coração a Deus e aos irmãos. Ouça música com a alma quedada. Leia um bom livro e se deixe viajar pela narrativa. Sinta o cheiro do café, o aroma do chá enquanto toma. Deguste mais a sua comida, mastigue mais e sinta o seu tempero. Quando estiver de folga, esteja realmente de folga! Pedale. Corra. Caminhe. Estude. Trabalhe.
Os nossos anos aqui na terra podem ser breves, mas podem ser cheios de sabor!
Naquele que nos dá vida abundante,

Márcio Cardoso

Comentários

Li esse artigo ontem no boletim da igreja e amei. Parabéns pela sensibilidade e por dizer o que poucos dizem, mas que sempre precisamos lembrar!
Que Deus continue abençoando sua vida.
Massi
Andréia disse…
Ás vezes o sabor da vida é meio insosso... as vezes meio amargo... as vezes docinho q dói...
Experimentar os vários sabores que a vida nos proporciona faz com que nosso paladar se torne mais sensível e aguçado...
Obrigada por me ensinar a degustar cada momento, não importa o sabor que ele traga...
A companhia do outro conta demais para que a vida seja vivida intensamente.
Amo vc!

Postagens mais visitadas deste blog

Dialética

Dialética de um Vivo. Sou tão confuso que o melhor de mim é o paradoxo Tanto sei me expor à visita do Belo como à realidade do trágico – às vezes insensível e outras empático Convivo com as sensações e os conceitos tento explicar o que sinto e sentir o que argumento Numa sede desesperada do Carpe Diem e do Maranata colho o efêmero e planto a eternidade Uma parte de mim diz “glória”, a outra diz “misericórdia”: sou pecador e santo, a bela e a fera, o espelho e a imagem Sofro a dor do oprimido e torço a desgraça do opressor quando o opressor não sou eu! Sei ficar quieto e agitado, deprimido e alegre, mascarado e do avesso, moribundo e príncipe Quem serei, quem sou e fui? Quem estou, estive e quem estarei? Quem sentirei, senti, e quem sinto? Sou agora, sou ontem, sou depois – sou um coletivo... Sou assim: um misto de dialética nas minhas entranhas gritando ensurdecedoramente silenciosamente, estridentemente suavemente como o cheiro que acabo de sentir... Todos têm seus heterônimos ou um “...

Qual Deus? (Jean-Yves Leloup)

O que eu digo quando digo “Deus”? Cada palavra nos remete a uma experiência; trata-se de qual experiência? A experiência de Abraão? De Moisés? De Jesus?... Não se fala de Deus em lugar algum da Bíblia. Evocamos com pudor, às vezes com temor, YHWH, o Tetragrama impronuniciável que designa essa realidade, para além e para o interior dos universos, esse “Nada” do Tudo cuja Causa é Ele... Para Moisés, é um “Eu Sou”: a afirmação de uma presença, não nascida, não feita, não criada, no coração daquilo que é feito, nascido, criado, composto. Sua realidade é inconcebível e seu Nome, impronunciável. No entanto, se fizermos a experiência do nosso nada após um abandono (não ser mais nada pra alguém) ou um acidente, nós poderemos nos interrogar sobre “o Ser que nos faz ser”, que permite que participemos durante algum tempo da Vida e do seu Sopro, já que a nossa vida só depende de um sopro... Se Deus não é para nós uma experiência, uma liberdade no coração de nossos condicionamentos, uma leve brisa ...

"Variação" (Márcio Cardoso) - Música nova!

Às vezes me sinto qual despedida Hiato entre o sim e o talvez Às vezes me sinto feito saudade Um cheiro de vida e adeus Às vezes me sinto nublado e frio Ora completo, ora vazio Sou dias de flores, de sóis, de amores Às vezes somente um nó! Às vezes sou festa, sou dança e canção Ora se cala o meu coração Mas todas as vezes, sem variação Eu sou querido de Deus! Às vezes sou pedra, coluna e rio Ora incerteza, vexame e arrepio Mas todas as vezes, de graça e paixão Eu sou amado de Deus Eu sou um filho de Deus