Um texto são palavras mobilizadas no papel pela química da tinta. Quando elas apareceram pela primeira vez, seu estado não era esse: mais se pareciam com pássaros selvagens, batendo as asas... O professor [teólogo-cientista] armou suas arapucas, pegou os pássaros, selecionou os que lhe interessavam e engaiolou-os com papel e tinta. Pobres palavras... Perderam a liberdade. Agora estão congeladas no tempo e no espaço. Mas depois, quando o professor [teólogo-cientista] se puser a lê-las, será a sua vez de perder a liberdade. Agora, sob o comando das palavras escritas, ele será obrigado a dizer aquilo a que elas o obrigam. A química prende as palavras no papel. Mas, no momento da leitura, a física da luz faz que elas voem do papel para os olhos, dos olhos, para a morada dos pensamentos, e daí para a boca. E o “lente” as transforma em sons. Ele as diz. Se, por acaso, pássaros diferentes passam batendo as asas, ele faz de conta que não os vê. Se ele se sente tentado a voar com eles, o texto o chama de volta. Barthes, em seu maravilhoso livro sobre a fotografia, diz que cada foto é uma imagem da morte. O que se vê é um momento que já foi, que não mais existe. A mesma coisa pode ser dita de um texto. O que nos faz lembrar a sabedoria dos textos sagrados: “... a letra mata, mas o Vento faz de novo viver” (1 Co 3.6). (O poeta, o guerreiro, o profeta – Rubem Alves)
Dialética de um Vivo. Sou tão confuso que o melhor de mim é o paradoxo Tanto sei me expor à visita do Belo como à realidade do trágico – às vezes insensível e outras empático Convivo com as sensações e os conceitos tento explicar o que sinto e sentir o que argumento Numa sede desesperada do Carpe Diem e do Maranata colho o efêmero e planto a eternidade Uma parte de mim diz “glória”, a outra diz “misericórdia”: sou pecador e santo, a bela e a fera, o espelho e a imagem Sofro a dor do oprimido e torço a desgraça do opressor quando o opressor não sou eu! Sei ficar quieto e agitado, deprimido e alegre, mascarado e do avesso, moribundo e príncipe Quem serei, quem sou e fui? Quem estou, estive e quem estarei? Quem sentirei, senti, e quem sinto? Sou agora, sou ontem, sou depois – sou um coletivo... Sou assim: um misto de dialética nas minhas entranhas gritando ensurdecedoramente silenciosamente, estridentemente suavemente como o cheiro que acabo de sentir... Todos têm seus heterônimos ou um “...
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