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Eduardo Giannetti no livro "Auto-engano"

"Nem sempre o que era desconhecido, mas veio a tornar-se conhecido, restringe-se à descoberta de coisas que são meramente complementares ao estoque de saber preexistente. A tensão entre o antigo e o novo - entre o estoque e o fluxo na busca de conhecimento - gera surpresas e anomalias. O novo conhecimento gerado pode alterar radicalmente o nosso entendimento acerca da natureza do saber preexistente e do seu valor de verdade. O conhecer modifica o conhecido. O desconhecido é uma bomba-relógio tiquetaqueando e pronta para implodir (ou não) o edifícil so saber estabelecido - uma ameaça pusando em tudo o que se mantém de pé. Certeza absoluta, portanto, não há. Afirmá-la seria negar que o desconhecido seja desconhecido. Seria supor a) que a fronteira máxima e intransponível do conhecimento foi alcançada ou, no mínimo, b) que o que falta conhecer é necessariamente "bem-comportado", ou seja, alguma coisa aditiva e não subersiva vis-à-vis o saber preexistente. A primeira hipótes...

Oração atribuída a Nietzche traduzida por Leonardo Boff.

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo. A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: “Ao Deus desconhecido”. Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos. Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo. Eu quero Te conhecer, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer, quero servir só a Ti. Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Trecho de Cartas do Inferno, de C.S. Lewis

Você deve ter ser perguntado muitas vezes por que o inimigo [Deus] não usa com mais frequência o poder de se mostrar sensivelmente presente nas almas humanas em qualquer grau que ele queira a qualquer momento. Mas agora você percebe que o irresistível e o indisputável são as duas armas que a própria natureza da sua estratégia o proíbe de usar. Para ele seria inútil apenas anular a vontade humana (pois isso certamente aconteceria se a sua presença fosse sentida num grau superior ao mais tênue e ao mais mitigado). Ele não pode arrebatar. Pode apenas cortejar. Pois a sua detestável ideia é ter os dois pássaros na mão e nenhum voando; as criaturas devem ser um com ele, mas devem assim mesmo permanecer elas mesmas; meramente anulá-las, ou assimilá-las, não servirá... Mais cedo ou mais tarde ele retira todo apoio e todo incentivo, se não de fato, pelo menos da consciência das suas criaturas. Ele deixa a criatura andar com as suas próprias pernas – para cumprir com base apenas na vontade deve...

Celibate or Celebrate?

Por Lya Luft "Lembrei-me agora da deliciosa historinha do monge muito velho, quase centenário, que num remoto mosteiro pede a um monge bem moço que o ajude ainda uma vez a ir à biblioteca que guarda preciosos alfarrábios. Pela última vez, ele quer folhear uma enciclopédia ou encíclica papal, algo assim - a princípio, o moço não entende direito. O jovem monge instala, então o velhíssimo velhinho junto a uma mesa imensa, tudo lá é muito grande e muito antigo. Mesa de carvalho, claro. É um aposento secreto no fundo da biblioteca, onde só os monges iniciados entram. O rapaz consegue o livrão, coloca-o na mesa diante do velhíssimo velhinho e sai, dizendo: "Qualquer coisa, toque essa sineta que eu venho acudi-lo". Passa-se o tempo, o jovem monge se distrai com seus afazeres, até que se lembra: e o ancião, como estará? Preocupa-se com o longo silêncio? - será que ele morreu? Corre até o fundo da biblioteca, até a sala secreta, e encontra o velho monge batendo repetidamente a ...

Indico a todos os compositores!!!

Um filme que muito me emocionou e vem me inspirando! Indico a todos que trabalham compondo canções. Visitem o site http://www.palavraencantada.com.br/ "Palavra (En)Cantada percorre uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar especial para a relação entre poesia e música. Dos poetas provençais ao rap, do carnaval de rua aos poetas do morro, da bossa nova ao tropicalismo, o filme traça um panorama da música brasileira até os dias de hoje, costurando depoimentos emocionantes, performances musicais e surpreendentes pesquisa de imagens." Um filme de Helena Solberg e Márcio Debellian Depoimentos de Chico Buarque, Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, Lenine, Jorge Mautner, José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Tom Zé, Zélia Duncan, entre outros...

Ela Canta, Pobre Ceifeira (Fernando Pessoa)

Ela canta, pobre ceifeira Julgando-se feliz talvez; Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anónima viuvez, Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. Ouvi-la alegra e entristece, Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões p'ra cantar que a vida. Ah! canta, canta sem razão! O que em mim sente 'stá pensando. Derrama no meu coração A tua incerta voz ondeando! Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai!

UM ANO COM MAIS VALSAS E MENOS PRESSA

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa Eu me recuso, faça hora, vou na valsa A vida é tão rara!” ( Paciência, de Lenine/ Dudu Falcão) Deixei para comprar o presente de natal da minha esposa somente na semana da festa. Ingenuamente fui procurar num shopping! Como todos sabem, nessa época do ano o comércio está fervendo de gente: jovens de férias, crianças para verem os enfeites natalinos, turistas e gente que deixou suas compras para última hora! Encontrei o que eu queria até com certa rapidez, e junto à compra uma constatação que me fez rir: depois do presente em mãos eu estava andando a uns 15 km/h seguindo o frenesi de todos os transeuntes! Então eu me perguntei: “por que estou andando tão rápido? Já comprei o presente, eu tenho mais de 2 horas para o próximo compromisso e o local do compromisso fica apenas a 7 km daqui!” Na mesma hora eu reduzi a marcha até quase arrastar o sapato no chão (só de vingança!), neguei-me a ser carregado por aquele fluxo de gente e pense...

A Pequena Alegria

Os movimentos do nosso coração, nossa força empreendida, os sonhos desejados, a nossa visão de mundo, a maneira como organizamos a nossa vida, nossa religião e liturgia, por vezes é influenciado pela sociedade; sociedade esta de consumo, do descartável, do imediatismo, do midiático, do utilitarismo, da concorrência, do ufanismo, do triunfalismo, do mito, do endeusamento do corpo e dos campeões, entre outras coisas... Num mundo como este os nossos olhos vão ficando cada vez mais cegos para as coisas mais modestas, para o Reino que acontece também no anonimato ("o Reino é como uma semente plantada..."), para os fracos, para os perdedores, para as amizades que requerem tempo, para aqueles que não tem o padrão de beleza imposto, para aqueles que tem alguma dificuldade motora, para as crianças, para os pobres e para os prazeres pequenos do dia a dia. Daí, no natal, se repete o que aconteceu no nascimento de Jesus: poucos perceberam o Deus de fraldas! Poucos perceberam o ...

Um pouco de Bernardo Soares (heterônimo de Pessoa) no "Livros do Desassossego"

No alto ermo dos montes naturais temos, quando chegamos, a sensação do privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos montes. O máximo da Natureza, pelo menos naquele lugar, fica-nos sob as solas dos pés. Somos, por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o erguimento e o píncaro que somos. Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que temos, não a temos; não somos mais altos no alto do que a nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos, nos alça; e, se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos. Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-no até ele, ou nascemos na casa do monte. Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que o diferencia não faz diferença....

O PODER DE JESUS É O SEU AMOR

A Bíblia nos diz com todas as letras em 1 Jo 4.16 que “ Deus é amor!”. O amor não é um atributo de Deus, entre outros, o amor é a própria essência de Deus. Deus é todo Amor. O amor não é uma faceta de Deus. É todo Deus! Deus não tem amor, Deus não age com amor. Deus é amor! Deus não deixa o seu amor em standby para exercer qualquer atributo seu. Deus não faz nada sem o amor, senão estaria se anulando; Deus nada pode sem o amor, porque o amor é Ele! Dessa forma todos os atributos de Deus, são atributos do amor. Ou seja: todo atributo que eu uso para Deus, eu devo usar para o seu Amor. Se Deus é onipotente (e sem dúvida é!), o amor de Deus é onipotente, porque Deus é amor. Se Deus é infinito (e é!) eu preciso afirmar que o amor de Deus é infinito, pois Deus é amor. Dizer que Deus é soberano é dizer que o Amor é soberano. O contrário também é verdade: as qualidades e movimentos do Amor são usados também para Deus. O Amor tudo suporta – Deus tudo suporta; o Amor tudo crer – D...

Um recorte do Rabino Abraham Heschel

A Torá oral jamais foi registrada. A proibição de registrar por escrito o "ensinamento oral" foi considerada, durante séculos, como uma doutrina básica. "Aqueles que registraram por escrito a halachá são como aqueles que queimaram a Torá. Aquele "que registrou a agadá perde sua participação no mundo que virá”. Então, os rabinos decidiram submeter o “ensinamento oral” à forma escrita. Para justificar a reforma audaciosa, eles interpretaram as palavras do verso 126 do Salmo 119, que dizem: “Um tempo virá quando será preciso ab-rogar a Torá para poder fazer a obra do Senhor”. Dessa maneira, afirmaram os rabinos, é melhor que uma parte da Torá seja ab-rogada do que a Torá inteira seja esquecida. O acúmulo de uma enorme quantidade de aprendizado, a dispersão das comunidades judaicas e o enfraquecimento da memória brigaram contra o sistema não escrito. O rabino Mendel de Kotsk perguntou: Como os rabinos antigos puderam abolir o princípio fundamental do judaísmo de não reg...

de Bernad Bro

Que vem a ser a pedagogia de Deus? Que vem a ser senão introduzir-nos, passo a passo, em certo silêncio, no seu silêncio e num silêncio sobre nós mesmos, porque acima das perguntas e respostas, o silêncio pode exprimir a presença e o amor.

De Alain Patin, citado por Dominique Morin em "Deus existe?"

(De Alain Patin, citado por Dominique Morin em "Deus existe?) "A ausência de Deus Deus, ninguém jamais o viu, tanto melhor... senão o crente... não teria mais nada a descobrir; essa ausência funda sua liberdade, responsabilidade e alegria. Sem essa ausência, ele não teria história possível, nem evolução, nem escolha verdadeira. Para que os homens possam tornar-se atores de seu futuro, é necessário estarem livres de todao presença que se impõe... A fé não pode ser jamais repouso, convite ao sono ou droga mais ou menos doce; ela é busca, iniciativa, aventura: 'Vai, parte para a terra que eu te indicarei'. Esse é, para sempre, o apelo dirigido a Abraão, o pai dos crentes."

Rainer Maria Rilker em "Cartas do poeta sobre a vida" - Ed Martins Fontes

Sempre se esquece que o filósofo, tal como o poeta, é o portador de futuros entre nós e pode contar menos do que os outros com a participação de sua época. Filósofos e poetas são contemporâneos de pessoas de um futuro longínquo e, tão logo prescindam de agitar seu vizinho, não têm motivo algum para criar ordens e tirar conclusões em seu desenvolvimento, exceto aquelas compilações sistemáticas que lhes são necessárias para uma visão geral de sua situação e que, no entanto, são sempre destruídas de novo por eles mesmos em benefício de seu próprio progresso interior. Tão logo sua conquista seja sistematizada e expressa em palavras, e alunos, discípulos e amigos se alinhem em favor dela e inimigos se precipitem contra ela, o filósofo não tem mais o direito de sacudir os fundamentos do sistema doravante habitado e de pôr em risco os milhares de indivíduos que tiram sustento dele. Ele obstruiu seu próprio progresso implacável, que talvez pudesse se erguer apenas sobre as ruínas dessa ordem; ...

Uma oração de Patxi Loide, citada por José María Mardones.

Tu, que brotas dentro de mim como uma fonte que não nasce de mim, porém que me molha e me rega. Tu, que brilhas dentro de mim como uma luz que eu não acendo, porém que ilumina minha sala de estar. Tu, que amas dentro de mim como uma chama que não é minha fogueira, porém que põe fogo em todo o meu ser. Tu, silêncio íntimo, que não falas, porém que sem palavras colocas em minha vida a palavra que dá vida ao mundo. Tu, confidente invisível, diálogo, companhia permanente, que me tiras do anonimato das coisas e me fazes ser eu.

Citação de S. Ireneu de Lião no livro "Recuperar a Salvação", de Andrés Queiruga

Se alguém perguntasse: "por acaso, Deus não poderia ter feito o homem, desde o princípio, perfeito?", seria bom que soubesse que, em relação a Deus, que é ingênito e imutável, tudo é possível; mas quanto a suas criaturas, precisamente porque tiveram início num tempo determinado, eram inferiores ao Criador (...). A mãe poderia subministrar alimento sólido ao bebê, mas este não seria capaz de digeri-lo, por se o alimento mais forte do que ele. Assim Deus poderia ter dado a perfeição ao ser humano desde o princípio, mas este não teria sido capaz de recebê-la. Por isso nosso Senhor, nos últimos tempos, recapitulando tudo em si mesmo, veio ao nosso encontro, mas como nós podíamos vê-lo. Ele poderia ter vindo até nós em sua glória indescritível, mas senso assim não poderíamos ter suportado o peso de sua majestade. Por isso, aquele que era o Pão perfeito do Pai apresentou-se-nos como a crianças. Em sua segunda vinda à natureza humana, apresentou-se como leite, a fim de que, alimenta...

Meia Verdade

Toda palavra que diz sobre Deus Não fala tudo o que quer dizer Tanta verdade que pensa Deus É meia-verdade, sempre aquém... Todos os versos de uma canção Não saberão dizer seu Nome Muita ciência não vai definir O Deus que está pra além de deus O meu silêncio é minha fé Em um Ser livre e indomável Feito pássaro selvagem Que voa, voa... Minha oração é minha fé Que insiste crer que do outro lado Existe Alguém que me ouve Ouve, ouve... E está além das palavras Para além de um outro lado Por escolha amorosa Está dentro de mim! Com reverência se diz seu Nome Como quem sabe frágil o saber E pela graça vai com alegria Diante dele e o chama de Pai. Márcio Cardoso

Um nome de Deus

Este desejo em mim que não sossega É grandeza e não tem nome Nasceu comigo, mas vem de muitas eras Atrás da linha do horizonte Companheira que é saudade Uma ausência que é presença Ah, desejo... meu suspiro e devoção Este desejo em mim que não me larga Fala muito qual o silêncio Emudece os meus lábios feito à morte – O hiato de quem vive – Parte de mim que já se foi A metade que não vai Ah, desejo... meu fôlego e fé Meu desejo diz mais que palavras É o melhor da minha oração Já traduziu o que a letra matou No meu gemido o Pai discerniu Ah, desejo... um nome de Deus Márcio Cardoso

"Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa

"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender."