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A Inveja da Morte

"A inveja da Morte" faz parte de um Pocket show autora que chamei de Poema Musical "O Amor em 5 atos". Essa obra canta algumas das estações de um relacionamento que vai desde a paixão, encontra a maturidade, enfrenta o medo da morte, passa pelos desencontros e celebra o objeto de amor. Em meu canal do YouTube você pode assistir as outras canções. Espero que goste! https://www.youtube.com/watch?v=24Kl-H5_mWI

Sobre versões originais a respeito de Deus.

Percebi algo na relação fãs - artistas que reflete a tendência da grande maioria de cristalizar conhecimento, congelar versões e endeusar dogmas. A primeira versão de um intérprete/cantor é recebida como "versão original" - o que já é uma sina. Para os fãs essa versão é incorrigível, definitiva e insuperável. Mas não somente a versão que por vir a fazer um outro intérprete da mesma obra é mal vinda. Se o mesmo intérprete ousa fazer uma nova gravação de sua versão original, variando no andamento , melodia, frases rítmicas os fãs o criticam. O que acontece? Os fãs se afeiçoam de tal maneira à "versão original", que ousam limitar a cosmovisão, a imaginação e liberdade do artista! É quando a obra fica maior do que o artista, negativamente falando! Ora, não peça a um artista que ele reproduza, que seja um genérico de si mesmo. Uma ofensa imperdoável. Penso que essa tendência também se evidencia nas relações: "eu não te conheci assim!", "você mud...

A Palavra

Não subestime uma palavra. Uma palavra não é apenas uma palavra. Uma palavra são vários combinados. Além de sentidos, uma palavra é som/música que diverte tantas crianças – onomatopéia, embeleza o texto e a poesia e corteja os amantes. Uma palavra é uma imagem - “janela”; um afeto - “casa”; um cheiro - “jasmim”. Uma palavra é uma cultura. Uma história. Uma palavra são emoções. A palavra é uma arma – disputa de poder, egos e vaidades. Uma violência emocional. A palavra é uma sentença, um preconceito. Um pedido de socorro, uma despedida. Um desnudar-se. Uma palavra é um beijo. Um amor. Uma palavra é uma esperança. Uma palavra é um universo. Uma vida. Um silêncio... Uma palavra tem cor, calor e textura. A palavra é Deus encarnado. Toda palavra que humaniza é divina. A palavra, onde estiver - artes, ciências, religião - que me reivindica responsabilidade, que inspira a vida, que se empresta para cantar as contradições e dramas humanos, que planta esperança é de c...

Minha homenagem e gratidão aos poetas!

O poeta é um cristo que morre sem fazer ideia da repercussão das suas palavras.  A despeito disso, sai a semear palavras generosamente. Profusão de sementes. Porque a esperança do poeta não é a glória, mas a sua vocação. O fazer poético é já a glória. No tempo do cio poético ele faz amores. E esses amores transcendem sua expectativa, o seu objeto, o mercado e o tempo. A poesia é maior que o poeta. Como canta Milton Nascimento, os poetas “fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos/ que jamais são alcançados, cansados, cansados/ nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem/ escrevem o que sabem que não sabem/ e o que dizem que não devem.” O poeta não percebe, mas está polinizando a vida com palavras e imagens, ventilando ideias com sons, fazendo terapia com símbolos, antecipando o futuro com metáforas, promovendo encontro com o sagrado. O poeta é um utópico, profeta e sacerdote.  Morre mudo e muitas vezes sem fé, mas não sem ter amado e prestado atenção...

A m a r a m a n d o

A m a r a m a n d o A Mara amando Inventa um mundo bom Onde cabe toda gente E não entra a perfeição Ama mais e espera menos Não sem angústia e pesar Há mar amando Há janelas, horizontes e sóis Mais beijos e abraços Ouro, trigo, vinho e mel Nova folha, cor e pincel Licença do perdão Amar amando No gerúndio teimoso Contra o ego e preguiça Ainda que seja feio e pouco É o amor o remédio Para a loucura e o tédio Amar a mando Não do Livro e das leis Dos anjos e do Divino O amor é generoso A dor do outro é o apelo Ao amor que é a sua cura Confira o vídeo - https://www.youtube.com/watch?v=O30WUuMtX_Y

O amor é maior do que a fé

Há uma história no livro de Gênesis que é um retrato da saga humana. A história de Hagar e seu filho Ismael, cujo pai é Abraão. Como Sara, mulher de Abraão não podia dar a luz, teve a ideia de usar Hagar como “barriga de aluguel” para resolver o problema da descendência de seu marido. Isso gerou muita confusão na casa do patriarca. Hagar fugiu para o deserto pela primeira vez, mas voltou para a casa de Abraão. Depois de 14 anos, Sara, milagrosamente, deu à luz a Isaque. Conf usão sobre confusão, pois agora não somente as mulheres disputavam, mas também os filhos, o que fez Sara coagir Abraão a expulsar a escrava com seu filho. Hagar e Ismael vão para o deserto pela segunda vez. Mas agora acaba o pão e a água e a fé e força para viver. Hagar se afasta de seu filho para não o ver morrer e começa a gritar e a chorar. No meio de sua crise, gritos e soluços, Hagar ouve a sugestão divina “levante-se, pegue seu filho e abrace-o!” . É o que faz Hagar: aperta o menino contra seu p...

Deus não é perfeccionista.

No livro de Gênesis, na poesia da criação, há um refrão que o Criador repete de boca cheia ao contemplar a obra que havia feito: “Bom. Bom. Muito bom!” . A frase traduz muito mais um deleite, uma gratidão – festa da memória – do que uma constatação de ter alcançado a perfeição, o definitivo, o acabado. Reflita. O Criador conseguiria ou não aperfeiçoar os mares, o sol, as estrelas? Melhorar um pêssego? Se sim, as estrelas, o sol, os mares, o pêssego não são perfeitos, apesar de serem maravilhosos! Mas para Deus já estava bom. Não estava perfeito, mas Deus deu por encerrada a sua obra. E com gratidão. Lembre-se também da frustração de Deus com as decisões livres dos homens e mesmo assim sua estima, gratidão e esperança pela humanidade não se cansam. Quem sofre com o perfeccionismo não se deleita porque não consegue terminar o que está fazendo. Nunca se dá por satisfeito porque nunca alcança a perfeição. “Bom” para um perfeccionista é muito ruim. Para ele tem que ser perfeito. D...

Verdade ou mentira?

A vida para ser boa pede socorro à fantasia. A boa fantasia.   Um eufemismo. Uma versão menos jornalística das relações. Sublimação. Uma aposta no amanhã. Sonhos. O imaginado. O lúdico. O superlativo. A hipérbole. Metáforas. O "era uma vez...". Dar um desconto na história do outro. Desconto na sua própria história. Se olharmos para a vida e relações objetivamente, de maneira cartesiana, jorn alística sufocamos a esperança. Se nossas interpretações dos textos e da vida pretendem ser jornalísticas, em busca da verdade, do "real" estaremos fadados a uma história ranzinza e ácida. E a solidão. Apologia à mentira? Pelo contrário. A favor de mais verdades. Arejar e alargar as verdades. A favor das possibilidades. Se bem que não podemos viver sem as mentiras também. Questão de sobrevivência muitas vezes! Sejamos honestos. Quem sabe uma proposta para sermos mais modestos ao interpretar o mundo, as relações, as versões, a história. Uma sugestão para olhar al...

O que me faz viver.

O que me encanta não é a simetria, a consonância, a perfeição (isso existe?); o que enche os meus olhos é a dissonância, a ambivalência, a assimetria. O que me instiga não é a completude, mas a falta, o inacabado, o ainda não. O que me faz viver não é a segurança, mas os medos; não a paz, mas a angústia. O que me provoca não é a certeza, as respostas, mas a dúvida, a incerteza, as questões. O que norteia a minha ética não é a polarização entre o "bem" e o "mal", o "certo" o "errado", o "branco" e o "preto", ..., mas as diversas matizes entre eles! O que me dá esperança não é o determinismo seja qual for, no qual não acredito; mas o acaso, a imprevisibilidade, o caos. O que me fascina não é uma vida angelical ou vida pós morte, que eu não conheço, do qual podemos falar pouco, mas a Vida humana como ela é! O Reino de Deus está entre nós, nesse chão assimétrico, contraditório, livre, incompleto, imperfeito, pol...

Oração de invocação. Quem invoca a quem?

“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.” Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena! Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório. Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da...

Quem segue a Jesus não vive em paz!

Para dar conta do “terror cósmico”, os nossos ancestrais criaram mitos. Para lidar com os medos e insegurança o humano precisou se cercar de uma ordem, uma rotina, uma narrativa. Para se organizar, o ser humano constrói um mundo de sentidos. Diante do absurdamente inexplicável ousamos nomear. Nesse mundo de sentidos encontramos tudo o que diz respeito à cultura: a linguagem, comida, modo de se vestir, o pensamento, a teologia, as “tribos”, os guetos, a urbanização, ritos de passagem, artes e outros.  Tudo para promover certo sentido, orientação, segurança, ordem e paz. Nada mais humano! Mas quem se atreve a ser um discípulo de Jesus tem esse mundo de sentidos bagunçado vez por outra! Parece-me que a caminhada de Jesus é sempre na contra mão de uma vida organizada definitivamente, de uma fé pronta, de uma zona de conforto, do egocentrismo, da indiferença, da alienação, do sossego entorpecente. Quem segue a Jesus não pode viver em paz! “ Eu não vim trazer a paz......

A bagunça bendita da Kenosis!

A Encarnação é a kenosis (esvaziamento) do deus vingativo, do deus que está no controle, do deus que manda matar, do deus domesticado e de um povo, do deus transcendente... A kenosis é a recusa de Deus de se identificar com o Poder, com o Motor Imóvel, com o autoritarismo, arbitrariedade, de escrever a história à parte dos homens. A encarnação é a afirmação plena do humano; é Deus gostando e ensinando a ser gente, é Jesus de Nazaré nos inspirando a abrir mão de pretensões tolas tais como a posse da Verdade, a religião verdadeira, uma fé mágica que arredonda a vida, perpetuação de dogmas. Evangelho/encarnação/ kenosis é deus deixando a companhia de anjos para se aproximar do homem, da mulher, do gay, da prostituta, do religioso, do judeu, do grego, das crianças, do índio; de todas as gentes de toda cultura, tribo e nação. A Encarnação é Deus bagunçando a lógica religiosa. O edifício que até então parecia acabado foi desconstruído quando Deus tarbernaculou entre nós! O melhor aind...

"Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.

117. A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstracta das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstracta. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma. Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda q...

Minhas invenções

Eu sou todas as minhas invenções. Tudo o que crio e o que penso tem o meu desejo e suor. Eu sou as minhas dúvidas e as minhas verdades os meus credos e preconceitos. As minhas angústias, soluços, calafrio os meus bosques misteriosos, os meus rios turvos os outonos boa parte do ano, tudo sou eu. Eu sou a minha metafísica e a minha imanência o meu medo da morte e a minha reinvenção. Eu sou os meus amores e paixões. Eu sou a doença que inventei os remédios que tomei os livros que li. Eu sou a invenção de mim e a sua projeção. Minha visão de mundo eu mesmo fiz com o que recolhi do Universo. E só recolhi do Universo aquilo que já era eu. Eu sou a fome de mim a liberdade e a reticência... Está tudo em casa! Márcio Cardoso

Dilatação

Eu sou tantos dentro de mim que quase me explodo Eu só me caibo Graças ao meu coeficiente de dilatação Mesmo assim, quando eu me dilato, Uma outra possibilidade de mim se impõe Quando o meu corpo esfria Este quase eu, que se esboçava, Para não escapar pelos meus poros Se divide entre os outros Alterando a sua substância E nessa dinâmica Cada vez que eu me divido eu me multiplico. Márcio Cardoso

O Escrevente

Eu sou quem me habita E também quem é habitado Eu sou aquele que me observa E também quem é observado Pelo lado de dentro e pelo lado de fora Eu sou o que tem ideias mais nobres E aquele que pensa vilezas Eu sou aquele que censurou uma ação E aquele que permitiu o indesejado Eu sou todo humano Eu sou aquele que ainda não virou palavras Os pensamentos que nem sequer ousei dar linguagem Eu sou essa entidade E o que escreve a seu respeito.

Observador

Não gosto de ser vigiado Esse sujeito, que sou eu mesmo, Passa o dia inteiro me observando Como que fiscalizando minhas ações Condenando meus pecados E censurando os meus arroubos Quando olho para ele me desconcentro Quando flagro o seu olhar ele some Ele vive de me ver, ele se alimenta de mim E eu dele. Márcio Cardoso

“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”

Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena! Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que é Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório. Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da vida. A presença de Deus é a causa da nossa existê...

MÁSCARA, QUEM NÃO TEM?

O uso de máscaras não é uma prática exclusiva no período do carnaval. Todos nós usamos máscaras o ano inteiro. Quero dizer: dependendo dos momentos e ambientes, temos maneiras diferentes de nos comportar. Usar máscaras é uma prática comum daquele que aprendeu a polidez. Meu comportamento numa cerimônia de casamento é um, meu comportamento em casa é outro completamente diferente; minha postura num velório não é a mesma da minha postura num aniversário. Não, isso não é esquizofrenia, mas sim polidez. O problema é quando eu uso uma máscara não porque o ambiente me sugere um comportamento, mas porque eu quero de alguma maneira tirar vantagens. Uma coisa, por exemplo, é usar a “máscara” para um ambiente do trabalho; outra coisa é usar, no ambiente do trabalho, uma máscara para disputas de poderes e jogos políticos. Uma coisa é usar a máscara “ideal” num ambiente de negócios, outra coisa bem diferente é usar uma máscara para trapacear numa negociação. Uma coisa é usar uma “fantasia” par...

TAL E TANTO.

O quanto cabe numa história a dois? Os fatos, os pensamentos O feito, o por fazer Linguagens, interpretações Memórias e saudades A eternidade e o agora Quantos “eus” numa vida a dois! Liberdade, autonomia Egos, poder, narciso Silêncio e espaço Ambiguidades e um lar Apreciação e sapos Quanto amor na vida de dois? Êxtase, epifania Animal e humano Cotidiano e eventos Conquista e gratuidade Duas crianças e uma fonte. Quanta vida! Quanta história! Tal e tanto! Quantos “eus”! Quanto amor Em nove anos! (Dedicada à minha amada Déia em nosso aniversário de casamento!)